Pois desde os primórdios do cinema a figura de um vilão, ainda que munido de estereótipos já manjados, é trazida à tona não só para “apimentar” um pouco a narrativa, mas também por transparecer o que vemos no mundo não-fictício: montes de indivíduos que tem toda a característica (má) índole do bandido do cinema. Verdade que tentamos fugir dessa realidade, esconder essa
verossimilhança maldita, só que a comparação é inevitável: o que falta para os corruptos, ladrões e imorais que constituem a política do país ganharem todo o caricato ar do vilão de cinema? Roupas escuras? Não, pois já vestem ternos pretos, que curiosamente me passam um aspecto burocrático tão, tão típico. Armas? De fato acredito –
ou espero – que eles não as possuam, pelo menos não as físicas. Grande coisa. Revólveres, metralhadoras,
bazookas – nada disso chega aos pés do poder de destruição que carrega uma assinatura – ou a sua falta – de um projeto, de uma lei. Existem, ainda, outros armamentos que deixam qualquer bandido de
western morto de inveja: curral eleitoral, apadrinhamento, desvio de verbas,
enfim: verdadeiras armas de destruição em massa.
Vilões à parte –
ou não – certas cenas do cotidiano político brasileiro são no mínimo intrigantes para mim. Como um tímido e sutil exemplo, cito o caso recente do Marcos Valério, aquele,
aquele mesmo, que se envolveu num passado próximo em falcatruas e,
por que não?, em casos não ou mal resolvidos, especialidade da pizzaria brasileira. Pois é. O segundo careca mais famoso do Brasil – arrisco dizer que o primeiro é o Ronaldo – recebeu novas acusações no último dia 17, junto de seus dois ex-sócios Cristiano de Mello Paz e Ramon Hollerbach Cardoso. O trio é acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e de evasão de divisas.
Super original. (
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Nada mais comum ver dinheiro público sair
sujo dessas tão clássicas
lavagens. Rotineiro aos olhos de todo brasileiro que abre o jornal e vê, já habitualmente, a primeira página com uma manchete gigante sobre futebol e outras muitas, miúdas, porém desanimadoras, trazendo notícias como essa. Pergunto-me: será que algum dia haverá um diretor audacioso – ou um seria louco? – que tentará transformar toda a trajetória política de um Brasil num filme? Traríamos de tudo um pouco:
Deodoros,
Vargas,
Juscelinos,
Goularts,
Médicis,
Collors,
Cardosos,
Lulas e todo o “pessoal” que vem junto: deputados, senadores, prefeitos, governadores,
enfim: o quadro completo que compõe ou já compôs as instituições de poder do Brasil. Seriam muitos os desafios. Pra começar, ele precisaria de um grande elenco – metade só para os
Sarney – e de muita verba pra bancar a superprodução.
Só acredito que o maior problema do diretor, por mais habilidoso que ele seja, será definir o gênero do filme: decerto, para não soarmos tão incrédulos, digamos que terão, no roteiro, alguns momentos românticos, felizes, alegres e
blábláblá. Mas convenhamos, a dúvida perdura. Irá predominar o quê: terror ou comédia?
