A autora vive

Não! Este blog não morreu. Ele (na verdade, eu, Bianca) está vivo. Reconheço que ele esteve algum tempo fora do ar, mas vocês sabem, é coisa de internet mesmo. Em breve, em breve mesmo, vocês terão novas atualizações.



Assunto não falta.

Um beijo!

Um país popular

Reconheço: mais uma vez me ausentei por um período gigantesco ― ainda mais considerando que tive férias (oh, a saudade!) ― mas, já diz o ditado, "o bom filho à casa retorna". Enfim, retornei.

Do último texto até hoje, muito aconteceu. Há meses atrás, escrevia sobre o circo das eleições e a candidatura de Tiririca ― e, digamos, confesso que me arrependi do que escrevi. Vá, era chover no molhado, de que me adianta reclamar de um palhaço em Brasília, se ele, coitado!, é apenas mais um no meio de tantos outros?

De lá pra cá, impossível não mencionar a eleição de Dilma Rousseff. E mais impossível ainda será não mencionar o quão vai ser (e tem sido!) agitada a semana da Presidenta: sem mencionar as apresentações nos programas de TV, Dilma já encontrou Shakira, e, quem diria!, encontrará o bom e querido fã de Lula, Barack Obama. Soube que, diferente da outra vez, o almoço entre presidentes será repleto de picanha, baião de dois (eca?) e sorvete de graviola. Tudo servido com a maior finesse, do jeitinho escolhido por Dilma, diferente de Lula e sua...Irreverência.

No Rio de Janeiro, Barack Obama fará discurso, visitará o Cristo Redentor e, depois, uma UPP na Cidade de Deus, não necessariamente nessa ordem. Só sei que fervorosíssimos estão nossos políticos, talvez pra ver quem consegue a melhor foto ao lado do grande "popstar", já de olho nas próximas eleições ― quem não visualiza algum candidato com o slogan "o candidato de Obama"? Pois é.

Já Michelle Obama quer fazer um passeio pela Cidade do Samba ou pelo Jardim Botânico. Enquanto isso, ruas são bloqueadas, parte do comércio é fechado e quinhentos milhões de helicópteros sobrevoam o céu carioca. O brasileiro não se abala e, como sempre receptivo, já tem todos os preparativos para receber a maior "celebrity" do universo político na Cinelândia:

Ir para o discurso do Obama com essa máscara é moleza. Quero ver quem sai com essa daqui:

Só cuidado com a CIA, com o FBI, e com, quem sabe, o CSI. É, o Rio de Janeiro nunca esteve tão seguro...

Incompatibilidade

Certo, eu admito. Deixar de atualizar um blog sobre política em época de eleição é como deixar de escrever, num blog de futebol, durante a Copa. Inadmissível. Mas vá, tenho lá meus argumentos, ainda que é, eu reconheço nenhum deles seja minimamente aceitável. A rotina de estágio e universidade me faz sair de casa às seis e quarenta (da manhã, pasmem) e só voltar lá pra depois das nove. Ou até depois das onze. Eu sei, eu sei, tive um período de férias de cerca de um mês, mas precisei participar de uma conferência sobre a política do Oriente Médio.


Mentira.

As férias foram de ócio (quase que) completo, apenas estagiava no período da manhã e tinha a tarde inteira para escrever. Então, minha única saída é dizer que, bom, o futuro dos blogs é se tornarem desatualizados, para que outros blogueiros supram a carência de conteúdo internético (sic) e cheguem com novidades e promessas como "eu nunca, nunca, nunca
mesmo, deixarei de atualizar este espaço". B-u-l-l-s-h-i-t.

Mas voltando às eleições. O que há de errado com o mundo? Sei que é cair no óbvio criticar candidaturas exóticas como de mulheres frutas ou "humoristas", mas a crítica me soa inevitável. Lembro-me que há alguns meses escrevi algo sobre o avanço de termos várias candidatas, o que mostrava, a meu ver, um grande passo dado na política. Independente dos partidos e das propostas, em meio a Serra, Plínio (!), Levy Fidélix (com suas propagandas superbem feitas - veja aqui) e Ey-ey-eymael, temos Dilma e Marina. Ou Marina e Dilma, pra não acharem que esse blog faz propaganda de alguém.
(mas não deixem de votar no Marcelo Freixo para deputado estadual)

Pois parece que damos um passo para a frente e dois para trás.

Frustrante é o termo que uso ao pensar que, num país que avança tanto, o descaso e a politicagem já começam na candidatura. É que, digamos, existem palavras que simplesmente são excludentes, não adianta insistir. A incompatibilidade reina. Como um paradoxo. É, para mim, unir Tiririca e deputado numa frase. Não combina. Tão difícil quanto misturar feijão com sorvete e usar Havaianas com meia. Não dá.

Apesar de ainda estourarem bombas dos políticos faltando menos de um mês para as eleições, não se desesperem. Eu sei. É difícil. Mas olha, você, que é mulher, pode entrar neste site: http://coliriospoliticos.tumblr.com/ e rir um pouco. O Tiririca diz que "pior não fica", mas vá, colocar o Vampeta numa lista de "Colírios" mostra que estamos mal servidos de candidatos até no âmbito físico. Que gafe!

Aliás, o Tiririca ainda lidera para ser deputado federal por São Paulo, saindo na frente até de Márcio França. Ele receberia, de acordo com o Datafolha, o maior número de votos em todo o país: 900 mil. Vou te contar, viu. Certeza que esses 900 mil que votam nele comem sorvete com feijão e usam Havaianas com meia. Tem salvação não.

A cegueira no Haiti

Vi, há cerca de dois meses, o filme "Ensaio sobre a cegueira", baseado no livro de José Saramago. Comprei numa daquelas promoções divinas das Lojas Americanas, onde você paga trinta reais e leva metade do (pequeno) estoque da Blockbuster. Adoro. Posso dizer que me surpreendeu, gostei tanto, mas tanto que até comprei o livro, até porque um amigo, recomendando, disse-me que o relato escrito era mais "visceral". E bota visceral nisso!

Deixando à parte meus comentários femininos - qualquer filme com o Gael Garcia vale a pena ser visto - é uma trama magnífica. Nunca se entra no mérito do surgimento da cegueira, explicações científicas bestas cheias das nomenclaturas exóticas que nos dão vontade de dormir. Simplesmente num dia comum, um indivíduo comum cega e estranhamente todos se contagiam, menos uma mulher comum, apenas uma, no auge da sua "comunzice" que passa a enxergar tudo, todo o caos - e a beleza do gracinha do Gael - que se instaurou no planeta. É a cegueira pela cegueira e ponto final. Nisso, nós, espectadores, e a moça, vemos como o homem chega no limite do seu instinto de sobrevivência, da sua capacidade de destruir e de ser destruído. É, digamos, perturbador.

Pois estranho que ao acabar de ver filme, ler livro, poucas semanas depois acontece aquilo que pode ser chamado, até como eufemismo, de novo Fim do Haiti. É verdade, um país que já teve diversos "fins" deixado à própria sorte como o mais miserável das Américas, com instituições políticas frágeis, população pobre, sofrida, triste. Tudo isso antes desse tão inconveniente terremoto. Quem diria? Um tremor destrói o que há de principal no país, abala ainda mais um Haiti tão abalado e acaba unindo diversas nações pra uma ação de bem comum. Mandam tropas de soldados, de resgate, de aviões, de comida, de tudo para reconstruir os trapos restantes no ainda mais pobre Haiti. É, digamos, de fato, que é uma drástica maneira de recomeçar o que já estava num círculo vicioso de penúria, uns ainda se dizem descrentes em relação à sua possível ascensão, eu, particularmente, acho prematuro qualquer julgamento.

Só não posso deixar de mencionar o quão hipócritas fomos todos que, agora, enviamos ajuda. Certo, certo, os menos pessimistas bombardeiariam-me com clichês à la "antes tarde do que nunca", mas vá! Temos um continente inteiro - sem mencionarmos os Haitis que existem pelo Brasil - num estado indecoroso que é, por assim dizer, ignorado. O mundo precisa de terremotos pra enxergar o que está tão óbvio? Ora, não somos cegos como os traçados por Saramago, apenas fingimos ser porque, sei lá, convém. Ou somos?

A verdade é que, no início dessa tragédia toda no Haiti, quis ignorar o que acontecia num bloqueio quase que inconsciente. Vai explicar... Depois pude associar que aquela destruição toda me remetia muito ao "Ensaio sobre a cegueira", do Saramago. O medo, a formação de gangues e milícias no controle dos mantimentos, a destruição dos espaços, o desespero de quem sobrevive a uma tragédia dessas, o despreparo de instituições políticas em situações de caos, tudo. E foi esse "visceral" todo que me assustou. Ainda mais que no livro. Tudo era pior, até porque a barreira da verossimilhança foi ultrapassada, rompeu-se como num terremoto. O que acontece lá é real. Real demais pra quem, até então, só havia lido o "visceral" de livros.

Nosso Ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse, hoje, que nós não estamos disputando uma liderança com os outros países no Haiti. Já ouvi por aí que com seus esforços humanitários em destaque, o Brasil atingiria mais facilmente seu objetivo de ser hegemonia na América Latina, como se isso tudo não se passasse de uma etapa pra ficarmos "bem na fita". Bom, quer saber? Competição ou não, que continuem com ela. Quem sai ganhando são os haitianos... No mais, na política ou, se preferir, nas "questões diplomáticas", deixemos de lado. Nisso os cegos se entendem.

Há um ano atrás

Feliz Aniversário, Política Chique!
Escrevia sobre a Teoria da Involução. Era o primeiro texto publicado neste blog. O homem não faria nada além de andar para trás, retroceder em sua história, em seu caráter, em seus princípios, enfim, em tudo que o dava o nome de Homem. De fato, pois além das características físicas, o que nos distinguiria dos animais? Ora, a capacidade de pensar, diria, o simples e tão complexo fato de sermos racionais. Mas que racionalidade seria essa?, me perguntava. Dizia isso num momento de desilusão e descrença total em nós, e foram justamente essas sensações que me motivaram a criar este espaço: me sentindo quase que sufocada e inegavelmente impotente em relação ao que acontecia na Faixa de Gaza, urgia a necessidade de criar algum lugar para descarregar as afliçõesmil na cabeça de uma garota de, até então, dezoito anos.

Certeza tenho de que escrevi bastante, na maioria das vezes num tom altamente crítico e sem a menor intenção de ser imparcial. Ora, quer imparcialidade, vá ler um jornal, uma revista - ou não, mas não procure aqui. Curioso pensar que há exato um ano atrás angustiava-me com a desigualdade e a irracionalidade e a crueldade e a maldade dos homens. O horror da guerra sempre me fascinou, não digo isso num tom de sadismo, jamais, mas pelo surrealismo em si contido. Recentemente, ainda, tenho visto mais que nunca filmes e séries sobre o tema e, apesar do estremecimento, da gritante crueldade que trazem, fico hipnotizada, com a curiosidade instigada ao extremo.

Trágico é perceber que ainda que após séculos e séculos que transbordam tais combates continuamos, assim, a involuir. A violência da guerra, qualquer que seja, é estúpida. Ora, já se percebe que, um ano após, aqui estou eu revoltada, ainda, com o que já aconteceu e não tem mais volta. Não me refiro, em especial, aos conflitos ocorridos apenas no Oriente Médio, que escrevi sobre em janeiro do ano passado (e que retornam periodicamente) - de fato, as cicatrizes lá estão mais expostas, mas o que são as outras guerras que nos atormentam todos os dias?

Existem guerras infinitas na política, onde deputados, governadores, senadores e outras espécies se encontram munidas de meias, malas e até cuecas recheadas de dinheiro. Existem guerras declaradas entre o meio-ambiente e nós, sim, nós, nós todos, que deveríamos manter uma relação de perfeita harmonia, estamos, na verdade, provocando um desequilíbrio sem tamanho e pior: sem tomar as devidas providências, vide conferências falidas, vide descaso de governantes, vide esse bando de mentalidades pequeninas. Existem guerras urbanas, infelizmente já é até clichê o que digo - pois quem diria? Balas perdidas, assaltos, sequestros virando cotidiano...Que ironia!

Pois sim, um ano após e o mundo ainda está de cabeça para baixo. Sejamos positivos, apesar de tudo, tentemos enxergar a "metade cheia" do copo. Vivemos num planeta onde navios pesqueiros que caçam baleias destroem barcos de ONGs que protegem os animais (G1). Temos o desprazer de coabitar em perfeita desarmonia este pedacinho de mundo com Arrudas da vida que afirmam, no maior tom satírico, "sou culpado até pela Mega-Sena" (G1). Descobrimos assistindo ao jornal que num atentado no Daguestão morreram seis pessoas (G1); você não sabe onde é o Daguestão, nem eu, nunca ouviu falar, mas, ah, faz uma idéia, não importa, afinal, atentados acontecem todos os dias. E seis pessoas? Modesto, diria.

Será que é isso a Involução? Ou não é o curso normal da vida? No auge dos meus dezenove anos não sei dizer. Talvez a experiência, com o tempo, traga respostas mais concretas e não mais devaneios baratos. E, evidente, espero que essas respostas não provem que sou mais uma utópica, uma idealista.

Pois é o que desejo. Daqui a uns quarenta, cinquenta anos, sessenta anos, já meio velhinha, caso viva até lá, espero ter a oportunidade de reler o que escrevi aqui. Direi ao meu neto: "ô, criança! Acredita que no meu tempo, sim!, nos meus tempos de garota, tinha político escondendo dinheiro na meia?". Ele vai rir, não vai acreditar, vai achar que é só uma anedota de velha enquanto tento convencê-lo de que, ainda nos meus "anos de ouro" uma grande nação elegia como presidente um louco, um ignorante, "como se chamava mesmo?", direi, "Bush? Brush? Busha? Enfim, neto, ele fazia guerra, meu bem! Guerra, sabe?". Ele não vai entender direito, afinal, o máximo de guerra que ele conhece é aquele jogo, já meio falido, isso, aquele mesmo, "War", mas digamos que ele não gosta muito, tem uns outros que ele prefere, "Jogo da Vida", talvez?

Promessa de ano novo

Eis que chega a minha época favorita do ano: Natal. Tempo de confraternização, de paz de espírito, de renovação e, é claro, de ganhar presentes, comer comida gostosa e assistir aos especiais da Xuxa ou do Didi na noite do dia 24. Bem, pulemos a programação televisiva, afinal, ela realmente tira um tanto da doçura da época. Depois da comemoração familiar, chega o tão por mim detestável Ano Novo - dispensando o meu desapreço, é, é inegável, uma data de transição, cheia das expectativas, das esperanças, das ansiedades, enfim, das emoções tipicas do 31 de dezembro. Todo ser humano minimamente normal que se preze faz promessas irrealizáveis na virada do ano: não interessa qual seja, o bom indivíduo estabelece, sempre, ao menos uma meta que ele, você e todos sabemos que não vai ser atingida. Seja, no meu caso, voar de asa-delta - ah!, mas que de 2010 não passa -, seja, no seu, trabalhar mais ou estudar mais ou trabalhar menos ou estudar menos; a verdade é que projetamos um futuro irrealizável pelas circunstâncias e, quando vemos, nossas vidas já foram tomadas pelas promessas vazias de Ano Novo. Confesso: não pulo de asa-delta porque não tenho dinheiro, porque minha mãe diz que vai ter um ataque do coração e porque tenho um pouquinho - pouquinho, quase nada! - medo de pular. E lá se vai mais uma meta pra 2010. E 2011, e 2012 e sei lá se vai ter depois, tão dizendo que o mundo vai acabar e vai que acaba mesmo.

Vazias ou não, sabemos que as promessas feitas no campo da política são recorrentes. Ah, se são. Nos últimos dias tivemos a Conferência de Copenhague, recheada dos políticos e dos representantes mais influentes do mundo inteiro e, quem diria, foi uma catástrofe. Um fiasco. Um desastre. Lá se foram as muitas expectativas depositadas mais uma vez. Obama, no início do ano, trouxe o famoso "yes, we can" e encheu de esperança minorias e maiorias, deu, de fato, um grande passo na história dos EUA - e, consequentemente, na história do planeta - mas, no mais, não foi assim, tão, tão longe, pelo menos não quanto as expectativas, as malditas expectativas, esperavam. E ganhou um Nobel. Mas calma, ele ainda tem tempo. E assim, sem sequer repararmos, se vão novas metas, esperamos nós, realizáveis.

Fugindo de um panorama macro, nos deparamos com nosso Brasil. Em 2010 temos eleições e a corrida já começa. Existe período melhor pra contarmos as promessas? Fato que não - ainda mais com Copas e Olimpíadas da vida. Pior: as tais denúncias de corrupção mais recentes que têm explodido no Distrito Federal envolvendo de deputados a - a que ponto chegamos? - governadores, podem até esbarrar no desenvolvimento das obras da Copa de 2014. Podem não: já estão esbarrando. A agência francesa que financia parte do transporte na região já afirmou que só prossegue se os gestores do processo não tiverem com maracutaias na Justiça. Difícil, né?

Pois prometamos para nós mesmos que 2010, lá fora, não será cheio de bombas, atentados, Berlusconis etc. E aqui? Bom, que seja um ano sem deputados que se "lixam"; ministros que batem boca; senadores que trocam olhares raivosos; senadores que quebram, massacram e assassinam o tal "decoro parlamentar" - "cangaceiro de m...!" -; governadores insultando ministros - "veado fumador de maconha!" - como não escrevi sobre?; governadores homofóbicos; deputados colocando dinheiro na meia, no panetone...Enfim, que 2010 seja um belo ano. Se depender de mim e de você, vai ser. E se depender das promessas deles? Bom, aí eu já não garanto nada.


Um brinde ao Brasil, ao Política Chique (que super em breve, em janeiro, fará um ano) e aos leitores daqui! Tudo de absoluto no Ano Novo e no Natal pra gente! E, claro, dispensando panetones do Arruda. Boas festas! :)

Que comam panetone

Maria Antonieta: símbolo da elite vazia, parasitária, do consumismo inconsequente, do luxo incontrolável. Às vésperas da Queda da Bastilha, na França, já como rainha, haveria dito, após ser questionada sobre o seu povo faminto, ora!, se eles têm fome, "que comam brioche". Uma das frases mais polêmicas de toda a História, se consagrou como o verdadeiro e radical oposto à máxima "liberdade, igualdade e fraternidade" francesa, ainda que possa, nas raízes de sua interpretação, ser considerada por outros vieses. Maria Antonieta pode ter proclamado irônica, pejorativa e grosseiramente a tal frase dos brioches; mas também, talvez por ser tão vazia e desnexa da realidade, disse, assim, por dizer. Que seja.

A verdade é que Maria Antioneta estava lá, há séculos atrás e no meio do turbilhão da Revolução Francesa. Eu, carioca, sua contemporânea, estou cá, no meio do turbilhão desse vexame político. O que diriam os revolucionários franceses do escândalo que explodiu, recentemente, em Brasília? De fato, devemos especificar - Brasília em si vive na base do escândalo, é verdade, mas, convenhamos: uns se sobrepõem aos outros. A operação da Polícia Federal, "Caixa de Pandora", tem investigado esquemas de arrecadação de propina no governo do Distrito Federal para distribuição a integrantes da base aliada da Câmara Legislativa. Câmeras escondidas gravaram um encontro um tanto informal e regado a base de muita grana do presidente da Companhia de Desenvolvimento do Planalto, Durval Barbosa, com José Roberto Arruda, na época candidato a governador. Arruda chega no gabinete, recebe um maço de dinheiro de Durval, e, feliz, comenta: "ah, ótimo!".

De acordo com investigações, o dinheiro teria em sua origem em pagamentos realizados por empresas prestadoras de serviços para o governo do DF. E no auge da nossa, permitam-me o neologismo, mariaantonietice, o advogado do governador, José Gerardo Grossi, afirmou que o dinheiro que aparece nas gravações, evidente meu, seu e todo brasileiro, foi usado para comprar panetones para pessoas carentes do Distrito Federal. Ora, se eles têm fome, que comam panetone!

Sem o caráter dúbio da frase da rainha francesa, que acabou decapitada pelos radicais da revolução, ouvimos essa pérola, ainda que sem o menor luxo, do símbolo da nossa elite parasitária política. O caótico é relembrarmos que Arruda não é novo no circo da politicagem brasileiro. Em 2001, quando senador, foi pego, ao lado de Antônio Carlos Magalhães, no esquema das violações do painel eletrônico do Senado Federal.

Arruda, como todo bom político, não estava sozinho nessa. Muito pelo contrário: tinha com ele os deputados Leonardo Prudente, Rogério Ulysses, Eurides Brito e Pedro do Ovo; além das empresas Info Educacional, Vertax, Adler e Linknet. O governador, que até o apoio do DEM já perdeu, teria se beneficiado com pagamentos quinzenais de R$ 50 mil, com empregos para parentes e amigos e com a construção de uma luxuosa casa em Brasília.

Arruda, de fato, nega as acusações. O vice-governador, Paulo Octávio, diz "desconhecer a existência e as razões das investigações". Enquanto isso, nós, aqui, comemos brioche, panetone, enfim, não importa. E os 14,4 milhões considerados pobres no Brasil? Esses daí estão esperando os seus panetones até hoje. Isso me faz pensar...Talvez a guilhotina dos revolucionários franceses não fosse uma má idéia.

Votemos direito. Cada um tem o panetone que merece. Ou não.