Hiatus academicus II

Oi gente!

Passo aqui rapidíssimo só pra dizer que não - o política chique não foi abandonado! :D só que como aconteceu no semestre anterior...Sabem como é final de período na faculdade né? Portanto, quando menos esperarem (acredito que em uma ou duas semanas) volto e saio comentando adoidada em todos os blogs pra avisar do retorno.

Nem o twitter do blog (@politicachique) está atualizado, mas só pra matar a saudade (oh!) escreverei lá com maior frequência. Enquanto isso, releiam textos antigos, mandem e-mails com sugestões ou mensagens desesperadas de saudade. Vou esperar (sentada).

Beijosmil,
Bianca

Polícia e ladrão

Véspera de aniversário é algo que, não sei exatamente a razão, me torna um tanto nostálgica e saudosa, algo que deve acontecer com outros. Acho cômico pois certas memórias de anos e anos atrás incrivelmente permanecem intactas em minha mente - o que é, no mínimo, excêntrico, uma vez que ela tem falhado incalculáveis vezes ultimamente - parecendo terem acontecido há dias, semanas atrás. Não é a maioria delas, de fato. Muito pelo contrário. Pior: não costuma nem guardar os acontecimentos que deveria de verdade. Exemplifico: minha mãe se revolta por, de nossas duas viagens em família à Disney, eu apenas lembrar de ter ficado enjoada no hotel, ter queimado a língua com chocolate quente e ter pisado no pé do Pateta. Ou do Mickey, não importa. Princesas, brinquedos, paisagens? Não me lembro. Viajamos quando tinha cerca de sete anos, na primeira, e oito, na segunda. Considerando que se passaram dez anos do ocorrido, deveria eu recordar mais lembranças? Provavelmente. Considere, no entanto, que mal sei que dia é hoje. Mentira. Sei. Mas só por meu aniversário estar a caminho.

Recordo-me, também, das brincadeiras. Engraçadíssimo ver os meninos brincarem do clássico "polícia e ladrão". Mas isso quando eu era realmente menininha. Já quando tinha uns dez anos, a sensação na rua em que morava, num agradável bairro da zona sul carioca, era brincar de "rebelião". Pois é: o velho "polícia e ladrão" já era brincadeira ultrapassada. Os meninos corriam pela pracinha e divertiam-se fazendo mini-revoltas. Não sei, sinceramente, como a folgança se desenrolava: se queimavam colchões para ganhar sobremesa, se faziam seus pais de reféns por não quererem ir para a escola ou se criavam passagens subterrâneas para ver a famosa "Emanuelle" na casa do coleguinha. Não vem ao caso.

Por mais que a situação seja engraçada, digamos que o que a separa do "trágico" é uma linha tênue: a violência já se fixou no imaginário coletivo, inclusive no de crianças - quem duvidaria que em algum bairro do Rio de Janeiro já não teriam crianças brincando de "polícia e milícia"? Vimos ontem na cidade maravilhosa estourarem uma série de absurdos contra a população carioca. Desrespeito tremendo. Teve helicóptero da PM sendo abatido, teve ônibus sendo queimado, teve tiroteiro, teve bala perdida, teve gente inocente morta. Céus, o que há de errado?

Não podemos estender o ponto em que até as crianças, o que nos resta de símbolo de esperança, desacreditam na própria cidade. O problema da violência no Rio de Janeiro, entre n outras causas, é também de educação. Ou melhor, a falta dela. E educação é um problema político. Aumentem os salários do policial, coloquem o Estado na favela, mas não ponham em segundo plano o estudo. Em 2016 teremos Olimpíadas no Rio, oportunidade particular para mostrar que o Brasil veio pra ficar, que de país do futuro agora vira também país do presente. E como fazer isso se não curarmos - e não simplesmente abafarmos - os nossos grandes obstáculos? As crianças de hoje vão ser nossos atletas, os nossos Ronaldos, Martas e Gibas - e que lugar melhor, que não a escola, para eles serem estimulados a entrar numa vida onde há oportunidade?

Não deixemos essas crianças serem desestimuladas pelo horror que vemos na política nacional. Se vemos uma governadora no sul do país sendo acusada de gastar o dinheiro público na compra de enxoval e aturamos políticos com ficha suja - ou imunda, se preferirem - sendo nossos representantes, o que pode servir de reflexo para esses pequenos? No mais, se até em Brasília brincam do velho "polícia e ladrão", deixem nossos meninos se divertirem com o que têm. Só espero que não prevaleçam os "ladrões" - já nos bastam os em Brasília.

Um Nobel e uma loira platinada

Martin Luther King Jr, Madre Teresa de Calcutá, Mikhail Gorbachev, Nelson Mandela, Yasser Arafat, Kofi Annan, Jimmy Carter e Al Gore. O que norte-americanos, palestinos, sul-africanos, macedônios e soviéticos têm em comum? Todos tiveram o gostinho de receber um prêmio Nobel da Paz, por esses nomes pouco conhecidos nessa seleta lista a qual comecei o texto. Pois não é mais novidade quem é o novo integrante desse clubinho de pacifistas - o simpático Barack Obama. Injustiça? Roubado? Já era tempo? Consenso passa longe. Os próprios Mandela e Gorbachev elogiaram a decisão. Fidel - sim, Fidel, compañeros! - idem. Já líderes do Hamas e do partido conservador paquistanês, por exemplo, criticaram duramente Obama, alegando que ele nada ainda fez de efetivo pela paz - promessas, promessas e mais promessas, e daí?

De fato não foi só no Oriente Médio que Obama foi apedrejado. No mundo inteiro surgiram as mais diversas críticas ao prêmio - não precisava procurar bastante para encontrar na própria imprensa brasileira duros argumentos desfavoráveis ao presidente norte-americano. Já li que a atitude foi apressada - é, digamos que alguns meses também me soam de forma estranha, apesar de ter simpatia por Obama - já li que o prêmio é uma farsa e já li que esse foi um grande passo na história mundial. Sinceramente, acredito que ele tem disposição e gás para as tais mudanças que tanto prometeu. E o simples fato de ter sido eleito - o que não reduz o seu compromisso - já até demonstrou um certo amadurecimento de uma sociedade norte-americana marcada pelo racismo. Digo, cautelosamente, "certo" pois após ler que 61% da população dos EUA ainda apóia as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki durante a 2ª Guerra Mundial, bem...Nada mais me surpreende.

Obama, como escrevi no início do ano, trouxe em sua eleição toda aquela aura de otimismo e necessidade - leia-se urgência - de mudança. O fardo era grande: receber um Estados Unidos afundado na crise econômica, um Tio Sam odiado ao redor do mundo e pior: administrar o caos deixado por Bush. Pois sua jovialidade e motivação me trazem à tona Kennedy. Kennedy também tinha todo esse carisma do atual presidente: sorria como galã, saía bem nas fotos e tinha uma família "perfeita" - desconsiderando os seus affairs extra-conjugais. Recebeu um país, em 1961, no meio da Guerra Fria. Os conflitos internos explodiam. E ele lá, no auge de seu heroísmo, defendeu as minorias e fez discursos memoráveis, históricos. Obama ontem, por exemplo, retomou a sua defesa das causas homossexuais. E aí encontramos mais minorias...Dèja vu.

Pois é, Kennedy e Obama. Eles formariam uma boa dupla, talvez. Os pontos em comum vão além de os dois terem ou terem tido esposas com um guarda-roupa chiquérrimo - apesar de Jackie Onassis ter um "quê" a mais de glamour, convenhamos. Ora, mas existem também diferenças, óbvio. Dentre elas, o tão polêmico Nobel da Paz. É, JFK ficou sem esse, mas ficou marcado por receber outro prêmio tão polêmico quanto, ainda que em termos diferentes: uma loira assim, platinada, sexy e irreverente - Marilyn Monroe. Pois só Kennedy recebeu o tal "feliz aniversário" - "Happy Birthday, Mr. President!" - mais comentado da história.

Obama, no entanto, estaria em tempo de ter uma loira platinada também e sair na frente de JFK. Quem seria, nos dias de hoje? Madonna? Melhor procurar outra. Madonna já encontrou Jesus...

Amém.

De braços abertos

Multifacetada. É o que a nossa cidade é: de maravilhosa, como consagrou a marchinha, a partida, como cunhou Zuenir Ventura, se tornou também olímpica, como permitiu o mundo. O Rio de Janeiro chegou esbanjando vontade e mostrou internacionalmente como queria sediar os jogos do mais importante evento esportivo existente, ainda que com o estigma terceiro-mundista em meio a tantas gigantes - Chicago, Tóquio e Madri. Quem diria? A batalha foi extensa, extenuante e intensa: passou pelo preconceito e receio dentro e fora do próprio Brasil, colocou as alcunhas em segundo plano e recebeu a chance não só do Comitê Olímpico Internacional, mas do mundo, de mostrar o que nossas terras tropicais têm de melhor.

Entendo, sem hesitar, os zilhões de pés atrás com as Olimpíadas de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. De fato não há una única modalidade de crítica ao fato ocorrido - existem os que temem um desvio de verbas absurdas, como ocorrido nos Jogos Panamericanos; existem os que acreditam que o Brasil precisa investir em fatores mais urgentes de infraestrutura; existem os que acham que as Olimpíadas deveriam ser feitas mesmo em Brasília - arremesso de pizza? - mas também existem aqueles paulistas implicantes que preferiam Buenos Aires a Rio de Janeiro. Enfim: tem de tudo.

Não escrevo aqui como carioca que sou, mas sim como brasileira. O Rio tem problemas como toda grande metrópole, agravados pelo simples fato de ser localizado num Brasil de Estado que se mostra muitas vezes bur(r)ocrático, corrupto e descompromissado. Puro azar, diria. Mas também tem uma sorte imensurável, afinal, propicia o prazer diário tão incomum aos moradores de poder viver o cotidiano num cartão-postal - sol, praia, morro, lagoa, mulher, homem, samba. É incrível. No meu (longo) caminho de casa até a faculdade faço um tour que chega a arrepiar, ficando até difícil de escolher a paisagem mais bonita. Pois a verdade é que o Rio não é só Copacabana, e isso o turista já reparou: a beleza carioca é vista em tudo quanto é canto, mesmo favelas com aquela explosão toda de cultura já encanta muito "gringo" por aqui. Só que essa maravilha toda já cansou de ser ofuscada na mídia nacional e internacional pelo descaso dos seus governantes - ônibus queimado, arrastão, sequestro, tráfico de drogas, prostituição: será que o Rio está podendo rir à toa?

Não. Impossível esconder os problemas. Mas estamos de braços abertos para soluções. Estamos de braços abertos para o comprometimento das autoridades, estamos de braços abertos para o Brasil, estamos de braços abertos para o mundo inteiro. O Rio, e não Chicago ou Madri ou Tóquio, vai ser, em 2016, não só a capital brasileira, mas do planeta, como foi recentemente Pequim - e, olha só!, que importante que ficamos. Lula disse no início do ano como estávamos "chiques" por emprestar dinheiro ao FMI, e agora, presidente, o que somos? Somos chiquérrimos. Já somos vencedores. A Olimpíada de 2016 não é uma conquista única dos cariocas, nem exclusiva ao Brasil. Ela é a prova mais concreta do crescimento no espaço global de nações que antes eram excluídas do "clubinho" dos gigantes desenvolvidos. Os chamados BRICs - Brasil, Rússia, Índia e China - países com potencial assustador, mostram que o mundo de hoje não é o mesmo que foi consagrado por tanto tempo na História. E nós sabemos como ele perdurou.

Os investimentos serão suntuosos. Os desvios, muito provavelmente, também. Mas creio - chamem-me de utópica, idealista, ingênua - que o Brasil e os brasileiros têm se preparado e amadurecido para receber um evento de grande porte como o tal. Que não seja uma Olimpíada puramente alegórica como a chinesa - belíssima, porém varrendo para debaixo do tapete os problemas mil que assombram a China - e busque resolver, nesses anos que virão, amargas questões internas.

Aceitemos de braços abertos essa oportunidade de mostrar que crescemos. Deixemos a euforia um pouco de lado e percebamos, da maneira mais racional possível, que em 2016 não teremos um Carnaval fora de época, mas sim o evento esportivo mais importante do mundo. Observemos também a conquista que a América do Sul alcança ao sediar pela primeira vez os jogos olímpicos. Relembro a "Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil", como na marchinha. Ouço um "Samba do Avião", do Jobim. Ah!...O Rio de Janeiro continua lindo. E vai ficar ainda mais quando receber alemães, italianos, russos, australianos, ingleses...
Aaaaaah, mas eu não perco um jogo!

Neopasárgada

Aprecio a boa poesia. Óbvio que o sentido de "boa", para mim, é bem único - adoro um Olavo Bilac, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, enfim, tudo depende do dia, da hora e da paciência no momento. Existem aqueles poemas pra lá de indecifráveis, e pior, sem rimas, sem nada. Não tenho muitos problemas com a falta de sonoridade - quem conhece Augusto dos Anjos, outro poeta que me agrada, sabe que ele usa palavras estranhas que de nada teriam a ver com aquela imagem de poesia doce, delicada, que agradam tanto mocinhas bobas (é, eu gosto) - mas a ausência de sentido é algo que realmente me irrita. Talvez o problema não seja com o escritor - aliás, muito provavelmente não seja com ele - mas com a minha capacidade de decifrar o que está intrínseco na subjetividade de um eu-lírico conflituoso. Céus!, e, digamos, a inexistência de rimas é um fato que me provoca um pouco, mas que pode ser compensada com outros artifícios, afinal, não é a boa rima - e não falo aqui de juntar "amor" com "dor" - que constitui a boa poesia.

Há um outro poeta que gosto também: Manuel Bandeira. Ele é o autor do lindíssimo "Poética", obra que adoro do fundo do coração; daquele outro, bonito demais também, "Arte de Amar", dentre outros de genialidade gritante. Mas o que me inspirou verdadeiramente a escrever esse texto foi o já tão parodiado - só não bate a "Canção do Exílio" - "Vou-me embora para Pasárgada". Relembrarei-os da obra pois vale a pena:

"Vou-me embora para Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei"

Pois onde será a Pasárgada brasileira? No Senado. Corram para se filiar a algum partido político e concorrer a uma vaga de senador, já que o prazo acaba no dia 2 de outubro. Ouvi na rádio CBN quais são os muitos benefícios que os eleitos ao cargo recebem e olha que a lista não é pequena: logo de início, eles recebem subsídio mensal de R$16.500, quinze vezes por ano. Como verba indenizatória são mais R$15.000 por mês. De auxílio moradia vão mais R$3.000. Carro com motorista? Sim. E mais 25 litros de gasolina - por dia. Cota na gráfica do Senado de R$8.500 por ano. E quatro passagens aéreas de ida e volta.

Quem se torna líder ou membro da mesa diretora ganha o direito de nomear livremente cinco assessores e seis secretários parlamentares com salários entre R$6.750 e R$9.000. O presidente da Casa, José Sarney, ainda tem residência oficial, direito de usar aviões da FAB, pertence ao Conselho da República e ainda é - respirem fundo - o 4º na linha de sucessão. No mais, ainda escolhem um suplente que não precisa receber nem o meu e nem o seu voto.

Uma vergonha. Lembrando ainda que nessa semana foi aprovada uma emenda que recria mais de 7,7 mil vagas de vereadores no Brasil. Detalhe: em 2008 o TSE reduziu em 8 mil esses mesmos cargos. E agora eles ressurgem assim, sem o menor pudor.

A verdade é que vivemos num verdadeiro paraíso para a politicagem e suas artimanhas. Manuel Bandeira, permita-me que, mais uma vez, seja criada uma paródia da sua tão bela fuga para Pasárgada. A minha extrema indignação momentânea, de braço dado com a licença poética, me traz novos versos para caracterizar a atual política brasileira:

"Vou-me embora para o Senado
Lá sou amigo do Sarney
Lá tenho o suplente que quero
E o salário que escolherei"

A verdade dói. Mas pelo menos rimou.

Cena de cinema

Recentemente descobri um vício bom: cinema. É verdade que é no mínimo improvável de se encontrar algum indivíduo que finque o pé e afirme que odeia, odeia e odeia filmes e derivados; até porque o cinema por si só compõe um mundo à parte. Um universo um tanto vasto, que aí sim se subdivide em diversos gêneros – terror, comédia et cetera – já não ficando nada improvável encontrar aqueles que odeiem musicais, filmes melosos com atores melosos ou, pra ser bem específica, longas-metragens japoneses com monstros, criaturas e bizarrices de maquiagem malfeita, mas que, ainda assim, apesar dos roteiros pífios – Céus!, aprendam com Hitchcock o que é o verdadeiro thriller – deixam pessoas sem dormir por algumas semanas. Preciso ser mais clara para mostrar que detesto tal gênero?

Pois desde os primórdios do cinema a figura de um vilão, ainda que munido de estereótipos já manjados, é trazida à tona não só para “apimentar” um pouco a narrativa, mas também por transparecer o que vemos no mundo não-fictício: montes de indivíduos que tem toda a característica (má) índole do bandido do cinema. Verdade que tentamos fugir dessa realidade, esconder essa verossimilhança maldita, só que a comparação é inevitável: o que falta para os corruptos, ladrões e imorais que constituem a política do país ganharem todo o caricato ar do vilão de cinema? Roupas escuras? Não, pois já vestem ternos pretos, que curiosamente me passam um aspecto burocrático tão, tão típico. Armas? De fato acredito – ou espero – que eles não as possuam, pelo menos não as físicas. Grande coisa. Revólveres, metralhadoras, bazookas – nada disso chega aos pés do poder de destruição que carrega uma assinatura – ou a sua falta – de um projeto, de uma lei. Existem, ainda, outros armamentos que deixam qualquer bandido de western morto de inveja: curral eleitoral, apadrinhamento, desvio de verbas, enfim: verdadeiras armas de destruição em massa.

Vilões à parte – ou não – certas cenas do cotidiano político brasileiro são no mínimo intrigantes para mim. Como um tímido e sutil exemplo, cito o caso recente do Marcos Valério, aquele, aquele mesmo, que se envolveu num passado próximo em falcatruas e, por que não?, em casos não ou mal resolvidos, especialidade da pizzaria brasileira. Pois é. O segundo careca mais famoso do Brasil – arrisco dizer que o primeiro é o Ronaldo – recebeu novas acusações no último dia 17, junto de seus dois ex-sócios Cristiano de Mello Paz e Ramon Hollerbach Cardoso. O trio é acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e de evasão de divisas. Super original. (leia mais aqui)

Nada mais comum ver dinheiro público sair sujo dessas tão clássicas lavagens. Rotineiro aos olhos de todo brasileiro que abre o jornal e vê, já habitualmente, a primeira página com uma manchete gigante sobre futebol e outras muitas, miúdas, porém desanimadoras, trazendo notícias como essa. Pergunto-me: será que algum dia haverá um diretor audacioso – ou um seria louco? – que tentará transformar toda a trajetória política de um Brasil num filme? Traríamos de tudo um pouco: Deodoros, Vargas, Juscelinos, Goularts, Médicis, Collors, Cardosos, Lulas e todo o “pessoal” que vem junto: deputados, senadores, prefeitos, governadores, enfim: o quadro completo que compõe ou já compôs as instituições de poder do Brasil. Seriam muitos os desafios. Pra começar, ele precisaria de um grande elenco – metade só para os Sarney – e de muita verba pra bancar a superprodução.

Só acredito que o maior problema do diretor, por mais habilidoso que ele seja, será definir o gênero do filme: decerto, para não soarmos tão incrédulos, digamos que terão, no roteiro, alguns momentos românticos, felizes, alegres e blábláblá. Mas convenhamos, a dúvida perdura. Irá predominar o quê: terror ou comédia?

Oh my God!

Meio inconveniente

Quem não conhece um inconveniente? Ou melhor, deixando de lado um vocabulário mais rebuscado e sendo até mais sincera: quem não conhece um chato? Pois é, todos compartilhamos desse mesmo desagrado: de gente que te liga no domingo às 8 da manhã - "oi, tá acordada?" - à gente que faz perguntas incômodas em momentos igualmente incômodos, todos precisamos de um chato para perturbar nossas vidas.

Mas o que mais me estranha nessa baixeza toda não é o tal inoportuno por si só, mas sim quem o alcunha e o seu respectivo porquê. Explico: o meio ambiente está em crise. Pior: está em baixa. Pior ainda: no Brasil. A Amazônia, a biodiversidade, o verde, os miquinhos dourados - tudo virou demodê. O que era antes um tesouro riquíssimo continuou a ser, ainda que com queimadas, derrubadas, enfim - verdadeiros assassinatos, na falta de um termo mais radical - só que ganhou uma aura um tanto penosa, até incômoda. Sendo clara: as florestas e as matas e as espécies e o tudo que temos de maior valor no Brasil têm, parece, se tornado um legítimo presente de grego. Inconveniência pura. Estorvo, transtorno, meu Deus!, como preservar o meio ambiente dá trabalho.

E digamos que não é puramente o labor que torna o meio ambiente tão chato. Existem, ainda, aqueles ambientalistas que tentam, num gesto quase que agonizante, trazer à tona discursos verdes - de folhas, de esperança - mas que são sufocados - e, convenhamos, desestimulados - por declarações infelizes e no mínimo desconexas da realidade, como as recentes do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. “O Brasil está praticamente desaparecendo em meio a reservas ambientais e indígenas, áreas de preservação e áreas consideradas prioritárias”. Segundo Stephanes, 70% do território brasileiro não pode ser utilizado para qualquer tipo de produção - como se isso fosse realmente respeitado ou até conhecido - e ainda há quem queira ampliar esse percentual para 80%.

E não acabou por aí: Stephanes acrescentou que é preciso definir melhor alguns conceitos como “por exemplo, sustentabilidade: é a realidade que temos hoje ou é buscar a realidade que tínhamos em 1500? O que esses ambientalistas querem afinal?”. É, Chico Mendes onde quer que está assiste a esse desacato com olhar de repreensão. Um vexame ver que o debate sobre o meio ambiente no Brasil está ainda tão retrógrado, mesmo sendo um país com uma biodiversidade riquíssima, milionária. O que falta para tratarmos com respeito o nosso ouro verde, amarelo, azul - ouro de mil cores, de mil espécies, de mil Brasis - e não com esse ar de inconveniência, do chato que liga às 8 da manhã de domingo - pois digam, o que falta?

De fato existem aqueles uns - e que são, na verdade, muitos uns - que por puro oportunismo vestem camisas da Amazônia enquanto, na verdade, permitem que o debate continue insípido e irrelevante. Como o próprio ministro Stephanes criticou, no final do mês passado, existem vários pseudoambientalistas "que não entendem de meio ambiente", artistas "que nunca saíram do Rio de Janeiro" e ONGs "financiadas pela indústria do petróleo", sendo alguns grupos realmente hipócritas e aproveitadores de uma fragilidade nacional. Mas quando falo aqui sobre a defesa séria do meio ambiente excluo de forma automática esses monstros da falcatrua. De primeira vem à minha cabeça o nome da célebre e incansável Marina Silva - com aquele seu jeitinho quieto, cabelinho preso e voz baixinha, Marina, que é tão discreta quanto humilde, busca defender o tão "inoportuno" desenvolvimento sustentável. Ela acredita, ainda, que a sua recente ida para o Partido Verde irá permitir uma maior desenvoltura ao insipiente debate que gira em torno das questões ambientais - espero que consiga. No mais, espero também que ela não apareça em vídeos como esse, fazendo shows, cantando reggae e dançandinho como fez o ministro Carlos Minc, um dos fundadores do PV. Fala sério. Os nossos políticos são mesmo uns frustrados! Perdi a conta dos que queriam, na verdade, estar no showbizz. Mas não é que diz o ditado: "quem canta seus males espanta"? Pois é, canta, Brasil, canta...

Para finalizar com chave de ouro, terminamos com mais Stephanes e a sua recente declaração: “Já somos de longe o país mais ambientalista do mundo. O Brasil ainda detém 31% das florestas nativas no mundo, enquanto que a Europa, que financia as organizações não governamentais que atuam na área ambiental no País, tem menos de 2% de sua área preservada”. Blá, blá, blá. Peraí, ministro. Vossa Excelência disse "ainda"?

Pois é isso que me preocupa, afinal.