Vi, há cerca de dois meses, o filme "Ensaio sobre a cegueira", baseado no livro de José Saramago. Comprei numa daquelas promoções divinas das Lojas Americanas, onde você paga trinta reais e leva metade do (pequeno) estoque da Blockbuster. Adoro. Posso dizer que me surpreendeu, gostei tanto, mas tanto que até comprei o livro, até porque um amigo, recomendando, disse-me que o relato escrito era mais "visceral". E bota visceral nisso!
Deixando à parte meus comentários femininos - qualquer filme com o Gael Garcia vale a pena ser visto - é uma trama magnífica. Nunca se entra no mérito do surgimento da cegueira, explicações científicas bestas cheias das nomenclaturas exóticas que nos dão vontade de dormir. Simplesmente num dia comum, um indivíduo comum cega e estranhamente todos se contagiam, menos uma mulher comum, apenas uma, no auge da sua "comunzice" que passa a enxergar tudo, todo o caos - e a beleza do gracinha do Gael - que se instaurou no planeta. É a cegueira pela cegueira e ponto final. Nisso, nós, espectadores, e a moça, vemos como o homem chega no limite do seu instinto de sobrevivência, da sua capacidade de destruir e de ser destruído. É, digamos, perturbador.
Pois estranho que ao acabar de ver filme, ler livro, poucas semanas depois acontece aquilo que pode ser chamado, até como eufemismo, de novo Fim do Haiti. É verdade, um país que já teve diversos "fins" deixado à própria sorte como o mais miserável das Américas, com instituições políticas frágeis, população pobre, sofrida, triste. Tudo isso antes desse tão inconveniente terremoto. Quem diria? Um tremor destrói o que há de principal no país, abala ainda mais um Haiti tão abalado e acaba unindo diversas nações pra uma ação de bem comum. Mandam tropas de soldados, de resgate, de aviões, de comida, de tudo para reconstruir os trapos restantes no ainda mais pobre Haiti. É, digamos, de fato, que é uma drástica maneira de recomeçar o que já estava num círculo vicioso de penúria, uns ainda se dizem descrentes em relação à sua possível ascensão, eu, particularmente, acho prematuro qualquer julgamento.
Só não posso deixar de mencionar o quão hipócritas fomos todos que, agora, enviamos ajuda. Certo, certo, os menos pessimistas bombardeiariam-me com clichês à la "antes tarde do que nunca", mas vá! Temos um continente inteiro - sem mencionarmos os Haitis que existem pelo Brasil - num estado indecoroso que é, por assim dizer, ignorado. O mundo precisa de terremotos pra enxergar o que está tão óbvio? Ora, não somos cegos como os traçados por Saramago, apenas fingimos ser porque, sei lá, convém. Ou somos?
A verdade é que, no início dessa tragédia toda no Haiti, quis ignorar o que acontecia num bloqueio quase que inconsciente. Vai explicar... Depois pude associar que aquela destruição toda me remetia muito ao "Ensaio sobre a cegueira", do Saramago. O medo, a formação de gangues e milícias no controle dos mantimentos, a destruição dos espaços, o desespero de quem sobrevive a uma tragédia dessas, o despreparo de instituições políticas em situações de caos, tudo. E foi esse "visceral" todo que me assustou. Ainda mais que no livro. Tudo era pior, até porque a barreira da verossimilhança foi ultrapassada, rompeu-se como num terremoto. O que acontece lá é real. Real demais pra quem, até então, só havia lido o "visceral" de livros.
Nosso Ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse, hoje, que nós não estamos disputando uma liderança com os outros países no Haiti. Já ouvi por aí que com seus esforços humanitários em destaque, o Brasil atingiria mais facilmente seu objetivo de ser hegemonia na América Latina, como se isso tudo não se passasse de uma etapa pra ficarmos "bem na fita". Bom, quer saber? Competição ou não, que continuem com ela. Quem sai ganhando são os haitianos... No mais, na política ou, se preferir, nas "questões diplomáticas", deixemos de lado. Nisso os cegos se entendem.