Depois de séculos sem escrever aqui - mais uma vez peço desculpas pelo que pareceu até descaso - venho com um assunto que está sempre na moda, mas que, é verdade, tem vezes que está mais "em alta" do que outras - e não estou falando de economia ou daquelas bolsas incompreensíveis e oscilantes. Me refiro à "liberdade de expressão" - não assim, naquele contexto quase que clichê, mas num relacionado à tecnologia, a esse futuro que se mistura com o presente, sem saber mais o que é expectativa-para-um-futuro-próximo ou o que já existe realmente. É como naquela musiquinha manjada da Globo, que atores e atrizes e crianças-prodígio cantam, sorridentes, que o "futuro já começou". Começou pra uns, e está longe de chegar perto pra outros. Consequências óbvias de uma globalização "assimétrica" (termo descaradamente roubado do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães), de uma explícita distribuição desigual de renda, de tecnologia, de saúde, de respeito. Talvez seja até uma "desglobalização", um sistema fechado de meia dúzia de loiros de olhos azuis, que ignora a presença de negros e mestiços e asiáticos e latinos e nordestinos e africanos e imigrantes e, por que não? outros loiros de olhos azuis.
A tecnologia virou, em alguns casos, artigo de luxo. Não é necessário dizer que desse atual processo de Revolução Tecnológica o continente africano foi quase que inteiramente ignorado, citando, como exceção, e de forma generalizada, a África do Sul e, é claro, os oásis que norte-americanos e europeus se hospedam - realidades um tanto diferentes da miséria já, erroneamente, ordinária aos nossos olhos. Ou vocês acham que num hotel desses a gente vê a miséria da África?
Eis que a internet ascendeu quase como um mundo à parte, e, quem está fora da rede, está totalmente out. Digo que é como outro mundo pois nela foi aberto um leque de possibilidades antes tão ínfimas e remotas, como criticar um governo num país em que a liberdade também é artigo de luxo. E esse é o meu foco nesse post: a liberdade de expressão e a internet, assuntos que, na teoria, estão tão ligados, mas que, na prática, tem sim uma certa distância.
É verdade que aqui no Brasil os problemas com a liberdade de expressão e censura na rede são poucos - ou pelo menos os que tenho notícia, mas se souberem mais casos ou discordarem com o que disse, os comentários serão sempre bem vindos - a gente pode lembrar, como exemplo, quando tiraram aquele video do Youtube, da Cicarelli na praia etc etc etc. Manchetes escandalosas e exageradas diziam que o meio havia sido "censurado". A liberdade de expressão, as questões contrárias ao controle do que é assistido voltaram à tona.
Só que, saindo do nosso mundinho, a história muda. Citarei uma série de exemplos que, para nós, são quase que inaceitáveis, como, no Irã, existirem mais de 5 milhões de sites bloqueados. A justificativa do judiciário é que todos tem "conteúdos imorais", mas, o que lá é considerado conteúdo imoral? Quem julga a imoralidade? O senso comum? O Estado? O fato é que pra você ter um provedor de acesso à internet no Irã, terá que ser instalado um filtro - e isso é imposto pelas autoridades - que utiliza o esquema de palavras-chave e são regularmente atualizados.
Um dado incrível é que o Irã é o primeiro país do Oriente Médio e da Ásia Central em número de usuários da internet, mas sendo também um dos que tem um sistema de acesso mais restritivo. E agora, durante o processo eleitoral no mesmo país, o controle da internet será ainda mais intensificado. Mas a história não acaba por aí: até as mensagens de texto por telefone celular durante os próximos meses serão controladas. Mahmoud Ahmadinejad recentemente bloqueou mais uma centena de sites, alegando, mais uma vez, que quer "preservar a moral".
A China também entra nessa lista de países temerosos com a rede - no ano passado, pesquisadores do Citizen Lab declararam que o país estava monitorando e censurando mensagens enviadas pelo Skype, programa de telefonia via internet usado mundialmente. Em geral, o filtro selecionava críticas ao Partido Comunista, mensagens sobre a Independência de Taiwan e outros tópicos políticos sensíveis. No fim do mês passado, o ministro de Relações Exteriores chinês disse que "a China não tem medo da internet", apesar de o Youtube ter sido bloqueado bem no início de março, mês de aniversário de um ano dos protestos difundidos pelos tibetanos contra o domínio chinês. Quando questionado pela censura, disse "não saber" do caso. Pra mim, já ficou óbvio: o video da Cicarelli chegou na China, o ministro viu, a dona-mulher-do-ministro soube e mandou bloquear tudo. Prontofalei.
O The New York Times também já fez acusações contra o país, alegando que a China bloqueia o acesso ao site do jornal. O que é igualmente inacreditável é que o país tem o maior número de internautas no mundo, chegando a quase 253 milhões. É chinês demais. E blog demais. E crítica demais. No entanto, é também censura demais. Ano passado, na véspera das Olimpíadas, foram claras as intenções chinesas no controle da informação e da opinião divulgados - tudo pra esconder pro mundo os trilhões de problemas que assombram uma gigante com PIB também de trilhões.
No início desse ano, os Repórteres Sem Fronteiras divulgaram uma lista com os 12 países "inimigos da internet". As nações que fazem parte da relação são Arábia Saudita, Mianmar, China, Coreia do Norte, Cuba, Egito, Irã, Uzbequistão, Síria, Tunísia, Turcomenistão e Vietnã, que, segundo a ONG, "transformaram suas redes em uma intranet, impedindo que os internautas tenham acesso a informações consideradas "indesejáveis". Só que essa situação até que está mudando. No dia 13 de abril, Barack Obama, ainda vestindo a camisa da mudança (e até que com Cuba tá mudando mesmo), mudou o rumo da clássica política externa americana, carregada, até então, com vestígios do vexaminoso Big Stick. O presidente decidiu que exilados cubanos morando nos EUA poderão viajar livremente para a ilha - antes, se não me engano, podiam apenas uma vez por ano - além de mandar dinheiro e mercadorias. As empresas americanas de telefonia estariam autorizadas a estabelecer conexões via fibra ótica e satélite com a ilha de Fidel, levando, finalmente, a informação para o país - antes mais fora-do-contexto que os habitantes da ilha de Lost. É verdade que, no início do ano, Obama preferiu não declarar nada sobre a questão do embargo econômico, preferiu se esquivar. Também é verdade que o país, mal ou bem, deu seus primeiros passos na questão da inclusão sem o empurrão do norte-americano: já no ano passado, Raul Castro perimitiu que fossem vendidos aparelhos celulares a cidadãos comuns. Logo em seguida, no entanto, questionado se o mesmo seria visto no âmbito da internet, o Governo declarou que descarta essa possibilidade. Vamos com calma.
Só que a rede também tem um uso que é um tanto condenável de forma unânime. Existem ainda crimes de ciberterrorismo, ocorrendo até pena de morte para o crime no Paquistão. Outro uso bem típico é o de sites de organizações terroristas, como a Al Qaeda, assumindo atentados ou alertando sobre próximos.
Bom, convenhamos: no nosso país (ainda) não temos esse tipo de problema. Se um dia o políticachique for bloqueado, conto com vocês pra irmos às ruas, com as caras pintadas, cartazes e gritos de guera ("ique, ique, ique!, quero o políticachique!"). Quero só ver.
Tô me achando.
1 hora atrás

5 comentários:
Que escrita perfeita,garota!
muito bom de ler seus textos!
PARABÉNS MESMO!
bJU!
rsrs Olha, a internet é uma extensão da realidade. Hoje existem dois mundos, que na verdade são o mesmo, mas prefiro usar o termo extensão porque um é ligado ao outro. Uma ação minha real tem repercussão na internet e vice versa.
A China tem o maior número de internautas do mundo, disso não tenho dúvida. até porque tudo na China é absurdo, qualquer timeco de 3ª divisão tem o dobro da torcida do flamengo. Em relação aos bloqueios à internet, eu tenho certeza que isso não vai se sustentar por muito tempo. Um país hoje que queira se mostrar para o mundo de forma correta, não poderá agir dessa forma retrógrada.
Enfim, Cuba é Cuba. É um caso a parte.
bjo Valeu!
Pelo menos podemos bater no peito e dizer desse mal não sofremos, justo nessa época de constante evolução da tecnologia é até inaceitável que as pessoas sejam privadas e monitoradas.
Hoje vim ao blog pra saber se tinha acabado,
que bom que voltou a postar =D, adoro vir aqui!
Bia, antes que eu me esqueça, bem que você podia falar aqui da questão da transferencia dos campus da UFRJ pro Fundão. Sei que esse tema afeta apenas uma minoria do seu público, mas não deixa de ser interessante
No Brasil, coisa que acontece também no mundo, o problema da internet envolvendo censura éa distribuição de músicas pela internet. Está certo que pra alguns isso é divulgação de cultura, pra outros é pirataria, mas se até os artistas apoiam, pra que proibir?
Não fazia idéia do nível de censura que é no Irã, apesar de isso não me surpreender tanto. Seu presidente (que, convenhamos falou uma verdade incomoda sobre Israel nesse fim de semana - desculpa, tá completamente fora do assunto, mas queria comentar isso!) chega a afirmar que não existem gays no Irã!
Resumindo todo lenga-lenga que eu ia escrever, é inaceitável que em pleno século 21, com a globalização cada vez mais crescende, países, ou melhor, ditadores proibam que sua população tenha acesso ao conteúdo mundial.
E pode contar comigo nas ruas pedindo a volta do Politica Chique. Tava quase saindo as ruas pedindo pra vc postar aqui de novo!
E conto contigo pela volta do Meus Pensamentos
A internet é essencialmente uma arma de guerra. Dessa forma é perigosa sua utilização. No Brasil não temos esse controlo rígido, talvez por isso pipoquem casos de pedófilos e demais esquisitices através da rede. Impossível saber como seria esse controle em nosso país, possivelmente a Globo cairia em cima, gesticulando nas caras e bocas do Boney.
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