Se essa rua fosse minha

Quando era pequena - mentira, até poucos meses atrás - achava que a continuação certa da cantiga que intitula esse texto era "eu mandava, eu mandava ela brilhar", enquanto o certo é "ladrilhar". Verdade, sempre tive um ouvido péssimo, mas a imagem da rua brilhando era, assim...onírica, fascinante. De qualquer forma, o eu-lírico da canção ladrilhava tal logradouro com "pedrinhas de brilhante", o que, portanto, mostra que não havia tanta discrepância no que eu e minha semi-surdez entendiam em relação ao que realmente era dito.

Existem ruas que brilham pelo nome, e não por serem repletas de pedrinhas cintilantes ao invés de asfalto - ora, quem não acha uma graça morar numa "Machado de Assis" ou numa "Dom Helder"? Aliás, recentemente, no bairro de Vila Marina, em São Carlos, mudaram o nome da rua Sérgio Fernando Paranhos Fleury, passando a ser chamada de Dom Helder Câmara. O tal Sérgio, que levava o nome do logradouro, foi um delegado do DOPS que comandou torturas a presos políticos durante a ditadura militar. A alteração foi determinada por lei aprovada pela Câmara Municipal no dia 12 de maio deste ano, após ter sido proposta pelo vereador Lineu Navarro, com apoio dos moradores da região, que elaboraram um abaixo-assinado. (Prefeitura de São Carlos)

Nada mais justo: Helder Câmara - "Irmão dos pobres e meu irmão", como definiu o papa João Paulo II - foi um verdadeiro defensor do direito à vida. Pouco antes do golpe militar de 1964, foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife, e algum tempo depois divulgou um manifesto apoiando a ação católica operária, o que lhe rendeu o desafeto dos militares - foi acusado de "demagogo" e "comunista", sendo proibido até de se manifestar publicamente. Ainda assim, continuou denunciando as práticas de tortura realizadas com o aval - ou pelo menos indiferença - do Estado. Enfim, a homenagem foi justa; convenhamos que a troca dos nomes foi da água para o vinho, ou melhor: do algoz ao humanitário. Nada mais certo.

E foram essas homenagens estranhas que me trouxeram a idéia para escrever. Estava ontem um pouco distraída, pra variar, quando ouvi minha mãe dizer, numa conversa solta, que um determinado endereço era "próximo à rua Ernesto Geisel". Céus, ouvi certo ou minha semi-surdez, da rua que mandava brilhar, atacava novamente? Pois dessa vez minha escuta não estava falha. Não foram meus ouvidos que me traíram. Foram alguns que não têm o menor respeito pelo Brasil.

Geisel foi um dos ditadores do período da ditadura militar brasileira - em seu legado que foi suicidado o jornalista Vladimir Herzog e morto o operário Manuel Fiel Filho - determinando o chamado "Pacote de Abril", grande retrocesso ao processo de abertura "lenta, gradual e segura", definido pelo próprio. Além de Geisel, outras excelências do governo ditatorial foram homenageadas com o nome de logradouros, como nas ruas Artur Costa e Silva e, acreditem se quiser, na rua Emílio Médici.

Emílio Médici é uma figura que me dá medo só de pensar. Não me refiro necessariamente, nesse caso, aos atos brutais deflagrados por ele, mas pela pose que ele fez na foto oficial de presidente, que consta na galeria dos governantes do país. Mas deixando de lado o meu pavor da expressão facial do general Médici, ele tem motivos infinitamente piores para darem nos nervos - incorporou as medidas de exceção previstas no AI-5, recrudesceu a repressão política, a censura aos meios de comunicação e recebeu uma enxurrada de denúncias de tortura aos presos políticos. Sabemos, no entanto, que a má fama do ditador, que até, por vezes, é tratado de forma saudosa, é amenizada pelo estouro do popular¹ milagre brasileiro, que de popular² não teve nada.

No ano passado, inclusive, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o regime militar que governou o país entre 1964 a 1985 não foi uma ditadura, mas um "regime de exceção". Ditadura mesmo houve no governo de Getúlio Vargas, segundo ele. Sem espantos: Lobão foi integrante ativo do ARENA, partido já extinto - ainda que com seus ex-representantes espalhados em n outras siglas - chegando até, em 1983, a votar contra a Emenda do deputado Dante de Oliveira, que restabeleceria as eleições diretas para presidente em 84.

Porém, não se desesperem tanto. Juro que essas homenagens equivocadas não são raríssimas pérolas exclusivas do nosso Brasil. Existem, na Espanha, "calles del General Franco" e no Haiti, "avenue Jean Claude Duvalier", outros ditadores com biografias polêmicas. Pior ainda é acreditar que, também no Haiti, existe uma escola - é, uma escola - que leva o nome de François Duvalier, o chamado "Papa Doc", talvez o maior carrasco do Haiti.

É duro de acreditar que essas denominações ainda perduram. Será que manutenção dos nomes desses logradouros se dá por inexistirem muitos daqueles que merecem realmente uma homenagem? Duvido. Usassem o nome da Dona Maria, aquela moça baixinha que fez aquele trabalho social lindíssimo na escola pública da esquina. Ou do Seu João, aquele velhinho simpático que cuidava de cachorrinhos como se fossem seus netos. Só, por favor, não alcunhem as ruas. Nem o paralelepípedo mais sujo merece ser ofendido dessa maneira.
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¹ po.pu.lar - adj m+f (lat populare): Notório, vulgar.
² po.pu.lar - adj m+f (lat populare): Democrático. Que é do agrado do povo; que tem as simpatias, o afeto do povo. Que representa ou pretende representar a vontade do povo. Pertencente ou relativo ao povo; próprio do povo.
Promovido pelo povo; que provém do povo. (Dicionário Michaelis)

13 comentários:

Antenor Thomé disse...

Olá,

Muito bom seu texto!!

Bjos

Antenor Thomé
www.muraldoantena.com.br

Iana da Costa Nascimento disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Iana da Costa Nascimento disse...

Oi Bia!
Bastante pertinente trazer à baila essa música que marcou minha infância nas brincadeiras de rodas e que, apesar de eu me considerar portadora de um ouvido super apurado, entendia a letra da mesma forma que você - erronemanete! (risos).
E como você aduziu tão bem em seu texto, é um absurdo que ainda tenhamos homenagens a indivíduos deste porte em nossos logradouros públicos. Aqui em minha cidade foi suscitado um projeto de lei na Assembleia Legislativa para que seja mudado o nome do estádio de futebol local, que para nossa infelicidade, leva o nome do terrível Emílio Garrastazu Médici. Eles sugeriram a troca do nome deste homem que defenestrou toda nossa honra e paz no tempo em que permaneceu no comando de nossa nação para, sem seu lugar, homenagear o nome de um senhor bastante respeitado e que durante toda sua vida lutou por nosso time de futebol local e pelo desenvolvimento do esporte em nosso estado, José Queiroz da Costa. Seria muito pertinente que todos agissem assim e comecassem a fazer uma limpeza em todos os lugares onde nomes contaminados e investidos em passados negros pudessem desaparecer da mesma forma que seus donos.

maLu. disse...

hahaha... adoreii o texto bia ! eu to aprendo um monte de coisa aqui menina! n sou mais aquela menina politicamente alienada hahaha.. to dando mó de esperta ! beiiijos, maLu.

Jaime Guimarães disse...

Oi, Bia!

Excelente texto! Sabe que eu também reparo nessa coisa dos nomes dos logradouros? Vejo os nomes e fico viajando imaginando que deve ter sido tal pessoa...

Quer ver uma coisa? Procure saber também sobre os nomes de escolas! Aí a coisa fica mais absurda ainda, porque geralmente são nomes de pessoas que nada fizeram pela educação, de forma efetiva. Nomes de secretários, deputados, senadores, governadores, ex ou atuais, não importa: estão lá. Aqui na Bahia isso era prática muito comum. Era um tal de "Escola Municipal César Borges", "Colégio Estadual ACM", "Colégio Otto Alencar", e outras 'personalidades' baianas. Daqui a pouco teremos "Escola Estadual Ivete Sangalo", só falta.

Mas realmente, não é só no Brasil: na Alemanha muitas escolas carregam nomes de nazistas até hoje.

Mas nem tudo está perdido...rsss...soube de uma escola aqui mesmo em Salvador que estava com um projeto brilhante: um trabalho de pesquisa sobre os nomes das ruas do bairro e demais estabelecimentos públicos do lugar ( escolas, posto de saúde e centro comunitário). Achei a ideia fantástica e espero ter notícas sobre tal trabalho da escola. É preciso conhecer a história da cidade, do bairro e saber quem foram essas pessoas que dizemos os nomes todos os dias.

Eu, por exemplo, para chegar ao trabalho pego a Avenida ACM todos os dias. Desse aí nem preciso falar muito, né? rsss Ë da mesma estirpe de Geisel, Médici e tantos outros.

Um beijo! Parabéns pelo texto, mais uma vez!

Jaime Guimarães disse...

PS: quando tiver um tempinho e paciência, leia esse texto que escrevi lá pelo ano passado. Eu acho que você pode até gostar, já que presta atenção nestes detalhes: ( eu presto atenção até nos elevadores, e quanta história tem para contar)

http://migre.me/6mZw

bj

Renan Barreto disse...

Bia, acho que foi o texto mais bem conduzido que vc já fez. Pelo menos dos que li. E se essa rua fosse minha eu mandava era colocar calçadas bonitas para a criançada brincar, não precisa ter pedrinhas de brilhante. Precisa só funcionar. Gostei muito do seu poder de percepção e conseguir tornar um assunto tão simples em algo complexo e interessantíssimo. Não é à toa que é jornalista! É das minhas.

Bia, concordo com você que não há necessidade de colocar nomes tão absurdos, homenagens tão sem sentido quanto essas que você citou. E o regime militar, foi regime mesmo. O Brasil só engordou na inflação. Mais de 1.000% a.a não é pouco, não é?

Todos os personagens que apareceram por aí, que desfilaram no seu texto não merecem nem ser lembrados, talvez só marcados como pessoas que não vieram para nada de bom.

Bem, Bjo BIa, e até a festinha no Freezer! rs Rio 40º! hau

http://renanbarretoonline.blogspot.com/

Clary disse...

beeeelo post *.*
concordo principalmente com a parte : Nem o paralelepípedo mais sujo merece ser ofendido dessa maneira.
:p
hahaha
:*

Marcela L. disse...

Eu também cantava "mandava ela brilhar"... Adorei o seu texto e, honestamente, não sei como é que surge a idéia de escrever sobre um assunto assim. Muito bom! Realmente, existem homenagens demais a quem não merece e muito poucas aos nossos verdadeiros heróis.
Parabéns!
onomeeperspectiva.blogspot.com

naosenhor disse...

Isso acontece em todo lugar, pra onde você for tem Médici, Costa e Silva, Geisel, além de alguns opressores mais recentes, guardadas as devidas proporções...

Deni Maciel disse...

história q fez parte da minha infancia.
tão bom relembrar.
eu ia depositar 5 reais lá na conta mas num tinha anotado os dados da conta e tal kkkkkkkkkkkmas vou ajudar sim
e quando começar a trablahar sempre todo mes dando uma ajudinha lá!...


feliz dia da nossa senhora da labirintite.
mais conhecida como VAN NUZA
ótimo fds.
e não sou do senado, nem da câmara mas voltamos do recesso....
abraço

Lusca disse...

Ainda não descobri de o brasileiro é um povo sem memória, com memória seletiva, ou com memória cara de pau mesmo. Talvez seja uma mistura bizarra dessas três.

Eric disse...

Em São Paulo, Costa e Silva é o Minhocão: Atrapalhará ainda por muito tempo.