Poder paralelo?
Cabe aqui situarmos os leitores, principalmente os de fora do Rio, ou mesmo nós, cariocas - eu mesma não tinha tanta noção da história antes das declarações do deputado Marcelo Freixo, que, por sinal, me surpreendeu - a coragem desse cara é incrível: mexer num vespeiro desses não é pra qualquer um. At all.
No início de 2007, com apenas três dias sendo deputado, o primeiro ato de Marcelo Freixo foi o pedido de CPI. A reação foi óbvia: ninguém quis assiná-la. O comprometimento seria terrível. Fatal. Literalmente. Era mesmo motivo de piada. Compreensível, até: como assinariam se vários parlamentares eram donos de milícias? E pior: como assinariam, se o próprio prefeito na época, César Maia, era a favor desses grupos, considerando-os "auto-defesa comunitária"?
A CPI das milícias só foi aprovada em junho de 2008. Cabe a questão: por que foi aprovada, afinal? Pois foi nesse período que uma equipe do jornal "O Dia" foi brutalmente torturada por milicianos, após se infiltrarem para uma matéria. Esse fato foi um marco na história das milícias, sendo a Comissão uma mera consequência disso tudo - a pressão na mídia começou a ser gigantesca, e os próprios veículos, que em sua grande maioria defendiam/não criticavam (o que já é considerável) esses grupos, se voltaram contra eles. É como o deputado que explanou (já que muitos fazem o mesmo, "discretamente") que se lixa pra opinião pública - rapidinho virou manchete em tudo quanto era revista, jornal, whatever. Acabou falando mal da mídia, e deu no que deu: rodou. Com a milícia a história foi quase que similar: depois de um estopim daqueles, virou bomba. O próprio Marcelo Freixo ressaltou essa "simpatia" dos grandes meios pelas milícias. Não precisamos nos esforçar muito pra lembrar daquela novela que passou na Globo, Duas Caras, da chatíssima Maria Paula, do arrependido Ferraço, e claaaaaaaro, do irritante Juvenal Antena, o grande protagonista, interpretado pelo mala do Antonio Fagundes. Seu papel era de um miliciano "do bem" (oh!), que defendia princípios e no final era o bom moço da história. E olha que nem foi noveleca da Record à la Mutantes.
Enfim, sociedade começou a cair em cima das milícias também. A CPI foi aprovada - e começaram seis meses de dedicação absoluta. Para efetuá-las, Marcelo realça que "o parlamento não é polícia", o caminho deles é "outro" e que acha equivocada a lógica de segurança pública no Rio. No entanto, buscou um grupo de policiais que auxiliaram nas investigações, contando com setores muito valiosos, e acrescentou: não leva a nada fazermos mil e uma avaliações da nossa polícia (que "é a que mais mata" etc) - isso leva a que? Essas discussões devem ser realizadas em conjunto com a corporação, aí sim deixaremos esse círculo vicioso que apenas criminaliza a instituição.
A equipe concluiu que as milícias surgiram há cerca de 9 anos no Rio, sendo quadrilhas muito bem armadas, dominando territórios (faço, aqui, uma ressalva: até a conclusão do relatório, elas dominavam 171 áreas, não sendo um termo específico para bairros; vide, por exemplo, Campo Grande - bairro no Rio dominado por milicianos), fazendo uso de terror e sendo comandadas por membros da segurança pública - sempre seriam policiais, ex-policiais, bombeiros, militares etc), seu corpo, no entanto, seria composto por civis. O incrível é o poder que esses grupos exercem. Até no preço dos fuzis. É, segundo Freixo, um fuzil custa 40 mil reais, preço inflacionado pelo crescimento das milícias. O precinho salgado é apontado pelo deputado como uma das razões de não termos visto um número exorbitante de tal arma apreendido nas operações policiais, acrescentando: "ou porque não acham ou porque é bom né?".
Para contribuir nas investigações, a equipe precisava de depoimentos de gente que morava nas áreas dominadas. Mas quem iria depor? Ninguém. Criou-se, então, o disque-milícia - número que foi um tanto divulgado nos jornais, revistas e rádios das regiões, pelo qual as pessoas discavam e faziam denúncias anônimas. O resultado foi uma surpresa: embora o disque tenha recebido trotes, a quantidade de informações relevantes que recebeu foi absurdamente superior - nomes, endereços, dados, tudo. E como ainda tem gente que acha que a milícia é boa pra população? Isso é o que chamam de "auto-defesa"?
Um fato que me chamou muita atenção foi a questão da lucratividade do negócio. Existem mil maneiras de ganharem dinheiro -extorsão direta (taxa de segurança, carnês), domínio de gás, netcat / gatonet. Mas o que mais movimenta cash é o controle do transporte público. Nessa semana foi morto o Getúlio, o cara que controlava a cooperativa de vans de Rio das Pedras. Em seu depoimento para a CPI, deu um dado que faz qualquer um cair pra trás: o faturamento só das vans e só em Rio das Pedras, diário, é de R$170.000. Diário. Freixo, ao terminar de cuspir esses dados, perguntou: "o que é que vocês ainda tão fazendo na universidade?" - é um caso a se pensar.
A situação é mesmo desesperadora, sabe? 2/3 das vans que circulam no Rio não são regulamentadas. Por que o choque de ordem não chega no transporte coletivo? "Por que ele não enfrenta o crime organizado? Tem medo de enfrentar, só cresce sobre mendigo na rua. Falta coragem", afirmou Freixo. E é verdade. O deputado acha um avanço o número de prisões de milicianos, que só é crescente - em 2006, foram apenas 5. Em 2007, 24. Em 2008, 78. E em 2009? Já temos 64 presos. No entanto, "se não conseguirmos superar os braços econômicos, a gente não acaba com a milícia. As prisões não terão efeito".
Agora explico aqui a interrogação no título do meu texto. Os jornais, as revistas, os blogueiros, os professores, o povo, os emos, os fãs de Jonas Brothers, os torcedores do Flamengo, enfim: vocês entenderam que eu falo de gentepracacete. Por mais diferente que sejam, tendem a chamar a milícia de poder paralelo. Mas como chamar de "paralelo" algo que está no próprio poder em si? É, porque não é novo que as milícias estão sim no poder, e não mais apóiam os candidatos - perceberam que se elas tem poder econômico e político, por que não se tornar o próprio deputado, vereador, whatever? E é o que aconteceu: ela entrou na máquina. E não fez isso pelo salário de R$9.000, como disse o deputado Marcelo Freixo, ressaltanto que "é, sim, um ótimo salário" - mas "não para quem ganha R$170.000 por dia". Por que se candidatam, então? "Porque é fundamental para o miliciano indicar o delegado, o comandante da área, definir o diretor da escola, a merenda. A indicação política é fundamental". O Estado deixa de se tornar barreira e se torna o próprio instrumento. O que se faz depois?
O problema é que a milícia se consolida pela moral. Defende que em suas áreas "não tem droga, não tem funk", e tem aquilo né: se apresenta como policial, não como bandido. Mas devemos desestruturar aquela imagem que os milicianos "combatem" o tráfico, quase que como o morador de tais áreas tivessem que escolher entre um ou outro. "A milícia não é reação ao tráfico", afirmou o deputado, fundamentando-se nas investigações da CPI, que concluíram que 60% das áreas por elas ocupadas, não tinham a presença de traficantes. E essa questão não vai ser resolvida pela polícia, mas sim pelo Estado e pela sociedade: vocês acreditam que não existe crime de milícia no código penal? Precisamos de mudanças no legislativo, ou então ficaremos buscando "outros crimes" que milicianos cometem, por essas (enormes) lacunas que existem na nossa legislação, tão completa pra uns, tão falha pra outros.
Marcelo Freixo falou um pouco da relação milícia x tráfico (conceito, para ele, equivocado, na medida que o que existe é "muito desorganizado" - amém! - sendo mais "grifes do medo"). Eles se diferem. E muito. A milícia é organizada, tem um discurso de ordem no braço do Estado, já o tráfico nem se organiza politicamente (amém!²). Porém, há algo que os assemelha: os dois são erros gritantes. "Não podemos escolher um".
Pra finalizar, acrescento aqui que nunca sequer tinha ouvido falar do deputado Marcelo Freixo. É muito chato admitir isso, eu sei, mas acredito que eu, como muita gente, sei mais dos nomes dos políticos ruins do que dos bons. É terrível ficarmos só ressaltando as politicagens e não darmos mais espaço pra quem tem feito um trabalho honesto, mesmo sendo ameaçado de morte e tendo uma filha pequena (e muito fofa!) pra cuidar. As propostas pra solucionar a questão, existem. Foram apresentadas no relatório da CPI 158 delas. Agora, é bem como ele disse: "só falta a coragem". Isso ele já tem. E muita.
Os mais cotados
A questão da reserva de vagas nas universidades públicas é uma bomba-relógio. Uns, dizem que incluem socialmente. Outros, acham que é só uma medida equivocada, falha, a curto prazo, mais expositiva do que eficiente. Chegam até a insinuar que pode haver um conflito racial no Brasil caso ela seja definitivamente adotada. O pior de tudo é que essa receita fica mais apimentada quando vemos os fatos: aquele escândalo na UnB, o qual gêmeos idênticos foram definidos de forma diferente - um branco, o outro negro. É uma banca que decide a sua cor, avaliando simplesmente uma foto anexada na ficha de inscrição do processo seletivo. Não escondo aqui que sou contra todo esse sistema - mas também não sejamos hipócritas: os "brancos" (se é que podemos classificar assim, num Brasil mestiço) no país tem, sim, um nível melhor de renda, mas não serão essas "medidas temporárias" de inclusão, que sabemos que permanecerão ad eternum por diversos motivos, que mudarão nosso antigo histórico de desigualdade. Li recentemente bastante sobre o assunto, e vi que as cotas nas universidades na Índia foram adotadas não como definitivas, isto é, temporárias, há anos atrás, permanecendo na mesma situação até hoje. Are baba!
E olha que agora até no mundo da moda a palavra "cota" é citada. A São Paulo Fashion Week fechou um acordo em que 10% das suas modelos tem que ser afro-descendentes. Justo? Leia mais aqui.
Mas as cotas também invadem a Câmara. Depois daquele escândalo das viagens internacionais pagas com o nosso dinheiro (eu querendo ir pra Europa e a filha do Gabeira lá na Disney...), elas foram proibidas. Os senadores se revoltaram, chamaram de "farra das passagens", culpando os deputados, como Fábio Faria (PMN-RN), que levou artistas para um camarote em uma micareta (sic). O mais incrível foi o deputado Silvio Costa, que em uma de suas declarações afirmou que ao restringir as passagens para parentes, poderia até se separar da mulher, "que não poderia visitá-lo". Ninguém merece!
E no final, o que aconteceu? Bom, no mês passado foi permitido o uso das passagens aos parlamentares somente no território nacional. Já ontem, a Câmara voltou atrás - liberou aos deputados viagens internacionais. A próxima viagem dos nossos parlamentares já foi combinada, e será para a Disney. Há boatos que lá se encontrarão com um candidato para as eleições presidenciais brasileiras de 2010:
Diferentemente de Obama, não acredito que ele seja chamado de comunista. Mas nunca se sabe. Esse shortinho vermelho...
Azar?
Todos temos os nossos momentos ruins. É um fato. Existem dias que simplesmente não deveriam existir. Imaginem a vida de um sujeito qualquer - criemos uma situação hipotética - ele acorda, atrasado. O despertador não funcionou. O despertador sempre funciona, mas hoje, não. Veste a roupa, abotoa a blusa, vê que falta um botão - esqueça, é só um botão, quem vai reparar? - corre para a cozinha, toma o café, passa a manteiga no pão, o pão cai. Virado para baixo, claro. Bem onde o Totó fez xixi. Quem que comprou esse cachorro, hein? Quem? A ex-mulher. Comprou e ignorou depois da separação. Falando em separação...Esqueceu de pagar a pensão. Não podia ter levado o cachorro junto da filha? A filha! Esqueceu a apresentação de balé da menina. Ignorou também. Corre pro carro, o pneu está furado, pega um táxi, vê que o dinheiro é insuficiente, vai pro ônibus - cheio, lotado, explodindo - e finalmente chega no trabalho. Descobre que o maldito que roubou a sua mulher foi promovido. Virou chefe. Leva uma bronca do novo chefe - Isso lá é traje pra vir pro trabalho? - Senta na cadeira. Respira fundo. Tosse um pouco. Não sente fome. O corpo arde. Pronto. Fechou o kit: está com gripe. E suína!
Ninguém merece essa gripe. Ela veio pra fechar o kit-azar do mundo real, que nem na vida hipotética do sujeito hipotético...Se é que a gente pode chamar de azar algo premeditado. O vírus da crise ainda não foi embora e já tem um outro por aí. É, gente. A taxa de desemprego na zona do euro é a maior desde 2005, e, pra variar, a Espanha está no topo, com esse índice chegando a 17,4%. Aqui no Brasil a taxa também subiu. Os países asiáticos lançaram fundo de emergência contra a crise. E nos EUA, a grande potência capitalista, sofre com intervenções do governo e Obama é acusado de socialista. No Oriente Médio continua o de sempre. E na Itália? Bom, na Itália a mulher do Berlusconi, o primeiro-ministro, vai entrar com pedido de divórcio. A crise é geral. Até matrimonial.
Em meio às mudanças, aqui no Brasil tivemos super novidade também. Os EUA já não tem mais aquela bola toda com a gente - a China os desbancou e se tornou o principal destino de nossas exportações. Pois é, no berço da não-intervenção estatal, além de já ter intervenção estatal, fazer fronteira com o México - reclamavam dos imigrantes...E agora, que eles migram com vírus? Houston...Tenemos un problema! - ser o grande início da crise econômica, perde aos poucos a sua influência histórica em terras tupiniquins.
Falando em problema, quem tem bastante é o setor de turismo. Desde setembro de 2001, data dos ataques terroristas às torres gêmeas, ele enfrenta dias piores - e olha que os efeitos da gripe suína ainda não foram considerados. Com o vírus Influenza A, as tendências são que o turismo internacional se reduza, o que já foi percebido pelas agências de viagem, e o nacional seja fortalecido. Uma oportunidade única pra descobrir se o Acre realmente existe.
Apesar dos males e mortes e porquinhos sacrificados (inutilmente), o Brasil tem, falando em termos econômicos, a ganhar com ela. Se a doença não chegaraqui, nossa carne suína se sobressairá - os EUA e o Canadá, dois dos três países mais afetados com a gripe, detêm 40% desse comércio. Nós, 17%. Esse número tende a crescer com o medo do risco de contaminação dos países que consomem a carne de porco, como a China. E mesmo que o Brasil fique gripado, temos produtos que substituam tal carne. É, é estranho. É como a analista Amaryllis Romano disse: "o que tem acontecido desde (o início dos anos) 2000 é que a gente tem sido beneficiado por todas as confusões internacionais". A gripe poderá contribuir pela substiuição do produto, pois o Brasil é líder mundial de produção de carne bovina. Sendo ainda principal produtor de soja.
Tensa mesmo é a situação dos porquinhos. Pedro de Camargo, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), pediu à OMS que o nome do surto de gripe fosse modificado, para proteger a reputação da carne do porco. “Não tem suíno doente nem no México. Essa desinformação nos causa problemas e eventuais prejuízos”, diz Camargo, justificando o pedido. E foi atendido: agora, os mais avisadinhos chamam de "gripe A (H1N1)”.
O pior de tudo é que mesmo não adiantando sacrificar os animais, o Egito o fez pra evitar que a doença se propagasse. E acabei de ler que o governo mandou sacrificar todos eles - olha que o país nem sequer doente tem. Voto pra que derrubem as pirâmides também, então. É, gente, acompanhem comigo: quanta poeira deve existir naqueles sarcófagos? Os ácaros? A alergia é gritante. Batendo um vento forte naquilo tudo, voa pó pro mundo todo. Se eu entro num lugar daqueles, alérgica que sou, morro. Gripe piramidina? Azar o deles!
Ps: Eu não quero que derrubem as pirâmides. Mesmo. Quero até visitar. Mas me revolto com essa ignorância toda em relação aos animais. (!)

