Matemática incomum

Nunca tive facilidade com a Matemática. Sempre a considerei uma matéria complicada, estranha e, por que não dizer, assustadora. Verdade, e estando, hoje, na Universidade, respiro aliviada só de saber que não terei mais que resolver duzentos problemas dos outros - é, para que me interessa descobrir quanto deveria receber cada filho da Mariazinha se a herança dela era de um milhão de reais? Ora, perguntassem ao gerente do banco ou aos filhos dela, que deveriam estar muito mais interessados do que eu estava, logo eu!, uma pobre menina que não suportava fazer contas - e ainda não suporta - preferindo fazer trinta redações a resolver uma única dessas questões matemáticas. Nem Freud explica.

Já admiti que a minha relação com a Matemática é no mínimo tensa. Tento entendê-la. No entanto, ainda assim, acho-a incompreensível. Vou explicar o porquê: fui, hoje, buscar sobre o que escreveria e confesso que matéria-prima não faltava, apenas não encontrava a menor disposição para criticar (mais) o Sarney, citar alguma gafe do Lula, falar da candidatura da Dilma ou mesmo agradecer pelo "pior da crise" ter passado. Porém, preferi escrever sobre aqueles recentes atentados que ocorreram na Espanha, nessa véspera do aniversário de 50 anos do grupo terrorista ETA. Ninguém assumiu a autoria dos ataques, mas as autoridades culparam o grupo pelas duas mortes e pelos sessenta feridos, devido a uma explosão e a um carro-bomba, respectivamente. Agora reparem os números: dois mortos e sessenta feridos. Dois mortos e sessenta feridos que ocuparam todos os noticiários. Dois mortos e sessenta feridos que provocaram indignação global. Dois mortos e sessenta feridos que também me deixaram triste com essa situação. Não me resta a menor dúvida que qualquer manifestação de terrorismo é horrorosa e merece ser combatida, mas e o que o mundo tem a dizer sobre os duzentos corpos que foram recolhidos em Maiduguri, na Nigéria?

"Eles estão levando os corpos em caminhões... até ontem (quinta-feira), recebemos mais de 200 corpos", disse Aliyu Maikano, chefe da Cruz Vermelha na Nigéria, à Reuters, acrescentando que corpos ainda estavam sendo coletados. (da Reuters)

Sou péssima com números. E ainda sou uma estudiosa das Ciências Humanas, o que torna, para mim, o fato duplamente incompreensível. Procurando a notícia em outros portais, chego no website do jornal "Estado de São Paulo" e encontro na seção "Internacional" a seguinte divisão: América Latina, EUA e Canadá, Oriente Médio, Europa e Outras Regiões. E foi nessas "outras regiões" que encontrei, assim, de forma discreta, a mesma notícia dos duzentos corpos. Repito: duzentos.

É uma pena que os conflitos africanos e as diárias milhares de mortes no continente sejam tratadas de forma tão indiferente. Sabemos que os números, os dados estatísticos, são relatos frios de uma realidade cruel e injusta, mas seriam eles, também, relativos? Depois dessa, fica a pergunta: quanto vale um nigeriano?

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A Ética do Conselho

Nos últimos meses, ouvimos bastante uma expressão que, dados seu tamanho e sua importância, deveria ter sido usada em outro contexto. Refiro-me à tão rechaçada opinião pública. Repelida, desprezada, ignorada, quando não xingada e, sobretudo, desrespeitada; ela tem sido o alvo de políticos que ultrapassaram os limites da falta de Ética e atingiram o nível mais alto da sobra de descaso com a população - e o pior: refiro-me a dois indivíduos que presidiram o Conselho de Ética. Utilizo o verbo no passado pois ainda me restam esperanças que a presidência de Paulo Duque será tão efêmera quanto a de Sergio Moraes, e que, quando menos esperarmos, ele já estará em Reinos bem longínquos visitando castelos com seus colegas.

O Conselho de Ética foi criado em outubro de 2001, visando ser o "órgão encarregado do procedimento disciplinar destinado à aplicação de penalidades em casos de descumprimento das normas relativas ao decoro parlamentar no âmbito da Câmara dos Deputados". "Cabe ao Conselho, entre outras atribuições, zelar pela observância dos preceitos éticos, cuidando da preservação da dignidade parlamentar, e, também, responder às consultas da Mesa, de comissões e de deputados sobre matéria de sua competência." Tal definição foi retirada do site oficial da Câmara, mas, sinceramente, não vejo muita aplicabilidade em conceituações que não condizem com a realidade. A começar, relembro o caso do deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), ex-presidente do Conselho - foi o primeiro relator do processo de cassação aberto contra Edmar Moreira, o famoso "deputado do castelo". No entanto, foi afastado do cargo pois antecipou a sua intenção de absolver Edmar em seu parecer. Foi nessa ocasião que declarou "se lixar" para a opinião pública, quando questionado sobre o episódio.

Sérgio Moraes tem uma lista de acusações extensa - o que nos faz refletir sobre a total falta de Ética no Conselho - e mesmo estando na mira de pesadas críticas da sociedade, ele não parou por aí. Não me refiro nem ao fato de ele se mostrar uma pessoa extremamente agressiva ao ofender, de forma preconceituosa, o repórter Danilo Gentilli do CQC. Essa, pelo que vi, foi apenas mais uma demonstração de como é rude o deputado. Pior mesmo foi o que disse recentemente, quando questionado sobre a absolvição de seu colega, Edmar Moreira. Moraes comemorou e ainda disse que lucrou com a polêmica criada em torno da sua frase. "Essa polêmica me deu muitos pontos. Nunca recebi tantos convites na vida, ganhei espaço", disse.

Paulo Duque (PMDB-RJ), atual presidente do Conselho de Ética do Senado, afirmou na quinta-feira que não se importa com a repercussão de suas decisões: "não estou preocupado com isso. A opinião pública é muito volúvel. Ela flutua", e, quando questionado sobre a cobrança da população em relação ao caso Sarney, acrescentou: "não temo ser cobrado por nada. Quem faz a opinião pública são os jornais, tanto que eles estão acabando". Duque já pode ser até processado pois ainda afirmou que o PSOL, que faz denúncias contra ele, não existe - "é um partido pequeno que ainda não existe, como o PT já foi um dia. Talvez cresça".

Para encerrar o post com o ciclo de absurdos, ontem, Sarney fez um discurso em tom de desabafo. Citou, ainda, Sêneca, filósofo romano: "Sêneca dizia que as grandes injustiças só podem ser combatidas com três coisas: o silêncio, a paciência e o tempo". Mas acrescento, aqui, que o filósofo também dizia que "o tempo revela a verdade". Vejo rapidamente a seguinte manchete: "Bird: em dez anos, Brasil não avançou em combate à corrupção". Assusto-me. Respiro fundo e prossigo com a leitura: "para Banco Mundial, porém, existe 'ambiente favorável' a ações anticorrupção no país". Vai dar tempo, Sêneca. Tem que dar tempo.

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Indagações e Indignações

Fico indignada com muito que tenho visto. Não digo que isso seja algo atual ou mesmo fugaz, pois é algo já rotineiro e que se, agora, nesse exato momento, escrevo esse texto, é porque a minha indignação é cíclica, mas oscilante - ora está no seu auge, ora está "domesticada". Digamos que agora eu esteja equilibrada, o que justifica o meu tímido radicalismo ou a sutil ausência de críticas (pesadas).

Recentemente ouvi na "BandNews FM", grande concorrente da "CBN" aqui no Rio um comentário que, ainda que possa soar despretencioso ou sem todo esse fundo de "teoria da conspiração" que já lhes antecipo, não foi construtivo para um Brasil de mudanças que, presumo, todos queremos. Foi como "em nosso país só existem políticos ladrões!" ou algo bem próximo a isso. Verdade que foi "apenas" um comentário bastante comum no meio da conversa entre os locutores, que não precisa ir muito longe - barzinho da esquina, escola, escritório, internet - para ouvir algo semelhante. Ressalto, mais uma vez, que tal comentário não foi de grande destaque na matéria - ele soou bem natural, como se precedesse um "ah, mas isso é tão óbvio". Escrevo aqui isso com desgosto. E repúdio. E desapontamento. Não só por ser uma grande rádio transmitindo uma mensagem um tanto radical, ainda que despretenciosa no seu tom de conversa informal, mas também por assim ajudar a construir um ideário da política nacional descrente e desesperançoso.

Ratifico aqui o meu posicionamento quanto às tão comuns generalizações. Generalizar é um erro gritante que em nada nos acrescenta - e aqui não me refiro exclusivamente a "cidadãos do Brasil", mas sim a "cidadãos do mundo". Afirmo isso pois os pilares que sustentam pérolas como "todo político é corrupto" são os mesmos que dão base para "no Oriente Médio só tem terrorista" ou "todo norte-americano é 'imperialista'". Sinto informar aos que batem o pé e crêem de forma convicta nessas frases que até reproduzem-las, que elas também nos trazem a clássica internacional "brasileiro é preguiçoso". É? Eu não sou não. E sei que tal máxima está bem mais para mínima. E é por isso que registro aqui o meu repúdio à construção de estereótipos tão sem fundamento e prejudiciais à imagem de grupos - quaisquer que sejam - que buscam se destacar positivamente, desvencilhando-se de alcunhas, preconceitos maiores.

De fato os noticiários na televisão e as matérias espetaculosas e sensacionalistas da mídia impressa colaboram para tal imaginário. Não nego que existam setores corruptos na política, o que seria uma mentira um tanto audaciosa - acrescento, no entanto, que tal corrupção também é possível de ser encontrada em toda e qualquer outra instituição de poder - o que não é o menor motivo de orgulho - mas ressaltarmos apenas o que é passível de críticas é outro equívoco. Parece que há uma inércia gigantesca impedindo que sejam divulgadas as positividades dos que constroem a política do Brasil. O que há de errado em realçar o que é feito de construtivo para o país?

Perturba-me essa falta de resistência em relação ao que é nosso. Se há uma insatisfação, indago-me, o que falta para o passo seguinte, da mobilização? Creio que minhas palavras soem como um inocente discurso-de-grêmio-estudantil, mas é a realidade - que, infelizmente, traz a possibilidade de mudança como distante, quase utópica. Sendo bem honesta com todos, escrevo isso deixando de lado posições político-partidárias e ideologias. Não carrego bandeiras capitalistas, socialistas, que sejam. A minha bandeira é a do Brasil.