O Intocável

Há um tempo atrás descobri o meu interesse por filmes sobre a máfia. O charme que envolve a composição de cada elemento das obras cinematográficas sobre o tema é fascinante: desde o figurino elegantíssimo até a escolha minuciosa da trilha sonora, vemos ainda um espetáculo à parte com a escolha dos elencos, cheios de "DeNiros", "Brandos" e "Pacinos". Mas um filme que se difere, por exemplo, da clássica trilogia de "Poderoso Chefão", é "Os Intocáveis", produção norte-americana de 1987, dirigida por Brian De Palma e escrita por David Mamet. Nele acompanhamos a saga do agente federal Eliot Ness, interpretado pelo lindíssimo talentoso Kevin Costner, tentando dar um fim às atividades ilegais em plena Chicago na época de Lei Seca. Enfrentou e perturbou o figuríssima Al Capone. Gente grande.

Não temos muito o que invejar os norte-americanos no quesito Eliot Ness. Já vi diversas comparações iguais à que farei nesse texto, mas, por mais que seja um pouco clichê, ela é inevitável, ela é iminente: o nosso Ness nasceu em Salvador, na Bahia de Caymmi, e cresceu no estado do Rio de Janeiro, o que justifica o sotaque meio puxado para o carioquês. Protógenes Queiroz tem um currículo tão extenso quanto a lista de "Al Capones" que já estorvou: lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, corrupção - Celso Pitta, Paulo Maluf, Law King Chong, Daniel Dantas, não importa quem seja, nem o ramo em que atua: seja na política, seja até no futebol, Protógenes não poupou um. E esse filme de máfia tem tudo para virar um "massacre da serra elétrica" tupiniquim: o ex-delegado da Polícia Federal anunciará no dia 2 de setembro o partido que irá se filiar, iniciando, como o próprio disse em seu blog, uma nova etapa na luta pelo fim da corrupção no Brasil, trazendo para o âmbito político a sua batalha por um país mais justo e honesto.

Não foram poucas as especulações da imprensa, publicadas como certezas "irrevogáveis", em relação ao "ínclito" Protógenes Queiroz, como define Paulo Henrique Amorim. Nesse curto ínterim ele já foi do PDT, do PSOL, do PT, do PCdoB, do PV, enfim, de um mar de siglas parecidas, mas com ideologias um tanto diferentes. Passa, no entanto, longe de PSDBs da vida, responsabilizando, por exemplo, tal partido, durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por sumir com as divisas oriundas da série de privatizações que se deram no Brasil. "Cadê o dinheiro?", indagou, em palestra na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Protógenes começou como advogado, fornecendo assistência a gente humilde. Acreditava, no entanto, que podia fazer ainda mais pelo povo: decidiu se inscrever num concurso para delegado e foi aprovado. “Queria prender gente, botar corrupto na cadeia”, diz. Mesmo com a pressão e polêmica fomentadas pela mídia, que, em geral, explorou bastante o fato de ele ter saído da posição de investigador e ter ocupado a de investigado, Protógenes não se deixou abalar. A sua confiança permaneceu irredutível, tanto que agora, com pesquisas que mostram o massivo apoio da população, segue para a política, já vitorioso: “tenho plena consciência do que fiz, do que sou e do que vou fazer ainda”. Eu também.

Especulações
de lado, ou melhor, "devaneios", como o próprio definiu, esperamos pela divulgação do partido e do cargo que Protógenes escolherá. Rumores dizem que ele tentará se eleger como senador, governador ou deputado federal. Não importa: o estrago que o nosso Ness fará em instituições corruptas é grande, e a preocupação dos imorais, antiéticos e "amalucados" é latente. Ataques são feitos de todas as partes. Não há para onde fugir. Tentem, no entanto. Protógenes veste um colete à prova de corrupção.

Mulheres-maravilha

Foi-se o tempo que a mulher era feita sob medida para o seu marido. Mal consigo imaginar os séculos remotos que nós, do sexo feminino, devíamos apenas cozinhar, lavar e passar. Céus!, eu teria sérios problemas - meu marido ia viver anoréxico, com a roupa suja e todo amassado. E ai dele se reclamasse! A verdade é que, sabemos, o mundo pararia sem nós, independente dessas habilidades caseiras - ou a falta delas - tão comumente nos atribuídas, e olha que isso não é discurso feminista: a mulher deixou de lado os clichês de esposa submissa e foi à luta. Ela rompeu barreiras. Ela queimou sutiãs. Ela vestiu calça jeans. Ela se divorciou do marido que ronca. Ela virou mãe solteira. E ela chegou à presidência. Calma, chegou à presidência? Sim. Não aqui. Mas seria isso uma questão de...Ainda?

Surpreendi-me quando vi que há uma lista relativamente grande de mulheres que já foram as principais representantes políticas dos mais diversos países. Tal quantidade se mostra ainda mais incrível quando lembramos que o preconceito e o machismo são fatores tão recentes e marcantes que custam - e como custam! - a desaparecer. Pois existem homens e, pasmem!, mulheres retrógradas que cismam em desacreditar num sexo feminino politizado e consciente, sustentando aquela figura monótona da esposa perfeita, do lar perfeito, enfim, de um tédio igualmente perfeito. Uns chegam ao ponto de radicalizar tanto o dilema que julgam mulher e política um paradoxo. Um erro. Uma heresia. Credo.

E os Nelsons Rodrigues da vida estremecem só de pensar numa brasileira na presidência do país. Os mais conservadores, que já reclamaram quando um operário - ora, que audácia! - foi eleito, imagina o que não dirão de uma presidenta? Até a palavra por si só soa estranha. Presidenta. Parece erro gramatical, como dizer que o feminino de "cão" é "" ou que o masculino de "borboleta" é "borboleto", dentre outras grosserias. Mas sabemos que "presidenta" está longe de ser uma palavra errada, apenas nós é que desenvolvemos concepções erradas. Precisamos nos acostumar com o termo não só por uma questão de vocabulário, mas por questões políticas: o "El País", grande jornal espanhol, publicou uma matéria em que afirmava que 2010 poderia ser o ano das "mulheres presidenciáveis no Brasil".

As "mulheres presidenciáveis" seriam Dilma Rousseff, Marina Silva e Heloísa Helena. Dilma em recente pesquisa do Datafolha apareceu com 16% dos votos, ganhando uma segunda colocação na corrida contra o governador de São Paulo, José Serra, com 37% das intenções de voto. Percebemos pela pesquisa que a soma das porcentagens da ministra da Casa Civil com a da incansável Heloísa Helena - embora o PT e o PSOL apresentarem divergências tremendas - as mulheres receberiam cerca de 28% votos, quantia significante no cenário político atual. E olha que nessa não incluímos a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que recentemente abandonou o PT e parece se enveredar para o PV - Marina, como as outras mencionadas, não se pronunciou quanto à questão de uma candidatura à presidência, mas busca se fixar na política com um discurso pró-ambiental, algo que um Brasil com o grande tesouro-verde que tem, precisa mais do que nunca.

Pesquisando aqui, vi que em 2007 a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, cogitou ser a primeira mulher presidente. Há pouco o seu grupo foi acusado pelo MPF de "organização criminosa" - a ação civil de improbidade administrativa movida pelo Ministério contra Yeda e mais oito pessoas, classifica o grupo ligado ao Palácio Piratini, sede do governo local, de tal forma, e mais: os procuradores sustentam que "os réus participaram ativamente da prática de expressiva fraude". O desvio, de acordo com a ação, atinge a cifra de R$ 44 milhões. (JusBrasil)

Ora, para que tenhamos uma presidenta que faça o termo soar mais errado do que já parece, repensemos a história. Mas como Yeda aparentemente não manifestou tal vontade novamente - e nem manifestará, se estiver em sã consciência, até o seu nome continuar no alvo da mídia - podemos ficar tranquilos. As outras três supostas candidatas são de partidos diferentes (temos até uma sem partido!), com biografias - algo que parece estar em alta... - um tanto distintas e ideologias até, quem sabe, opostas. Resta-nos escolher.

Sem mais aquela vida submissa e ofuscada pelo machismo do marido, a mulher virou heroína dos filhos, dos cônjuges, dos eleitores - é, ela realmente cresceu em todos os cenários. Mulher maravilha: um longo passo tem sido dado na política brasileira...E melhor: de salto alto.

Eita. Por onde eu começo?

Indecisão

Desde sempre fui chamada de indecisa. E reconheço isso. Tenho uma séria dificuldade em escolher entre duas - se mais, pior ainda - alternativas. Não consigo pensar numa outra maneira que não seja "estou abrindo mão de algo, posso me arrepender", o que me dá uma dó tamanha, junto daquela péssima sensação de que poderia-ter-escolhido-melhor. É sempre assim. De escolhas bestas à escolhas complexas. Fora que sou uma pessoa com gostos tão diferentes que chegam a ser até, para alguns, excludentes; o que dificulta horrores o processo já doloroso da decisão: "compro um livro cheio de fotos sobre moda ou um cheio de textos sobre a Revolução Russa?" - e daí pra baixo. Ou pra cima. Enfim, confuso, eu sei.

Admito: as piores decisões são aquelas irreversíveis. Marcantes, oficiais, públicas e, se me permitem o pleonasmo descarado, decisivas - essas daí me tiram o sono. E deviam tirar de muita gente por aí, que dirá em Brasília. Quando um político escolhe um partido, teoricamente ele se identifica com o tal pelos seus ideais, pelas suas lutas construídas, pelo seu quadro de representantes, enfim, por uma gama de outros de fatores. Mas a verdade, sabemos, é um tanto diferente: muito do que move as decisões políticas são os tão egoístas interesses pessoais, que são variados mas que, no fim, convergem, quase que de forma unânime, para o par dinheiro/poder. Tal associação é simples, só mudando, dependendo da visão de cada um, o verbo e a ordem das palavras, sem grandes alterações: dinheiro traz poder, poder é dinheiro, dinheiro faz poder etc. Isso tudo, claro, num quadro em que ainda vemos um coronelismo mascarado, uma exagerada burocracia, uma corrupção em qualquer campo e uma população conivente com tais atos - secretos ou não.

Em dezembro de 2008 o STF confirmou a constitucionalidade da resolução do Tribunal Superior Eleitoral que disciplina a perda dos cargos eletivos de deputados, vereadores e senadores por infidelidade partidária, isto é, aquela bagunça nas trocas dos partidos: direita virando esquerda, esquerda virando direita etc e tal. Confusão bem típica da política, se me permitem o termo, desmemoriada. De fato muitos políticos brasileiros não acreditam que haja um prazo de validade para o (mau) exercimento de suas funções, como o sarcástico deputado Sergio Moraes (PTB-RS), que além de se lixar pra todos nós, declarou publicamente que mesmo com todo aquele alvoroço, acabaria sendo eleito novamente. E novamente. E novamente. E eu lá duvido?

Digo isso pois caso ele, como qualquer outro mestre da politicagem, trocando ou não de partido, poderá ser eleito novamente. No ano que vem elegeremos não só o novo presidente - ou seria nova presidenta? - como, espero eu, novos governadores, deputados federais, deputados estaduais e senadores. A renovação no Senado, como em todas as outras representações de poder, é essencial. E o melhor: é uma escolha nossa. Não podemos continuar com Duques, Collors, Sarneys, Virgílios, Renans, e tantos outros. Ora, que peguem seus jatinhos e partam para bem longe!

Ressaltemos que a questão da fidelidade partidária é, ainda, um tema áspero: ao mesmo tempo que evita o intercâmbio entre partidos, faz com que os poucos políticos comprometidos que nos restam hesitem em trocar: mesmo que o partido não se comprometa mais com o que antes propunha, cabe ao político decidir se permanece onde está, carregando rótulos que a sua filiação leva, ou mudar para outro, correndo o risco de perder o mandato. E é isso que tem acontecido com a senadora Marina Silva, que tem pensado seriamente em sair do PT e ir para o PV, independente de uma candidatura à presidência.

E é por essa bagunça toda que não podemos ser indecisos quanto ao que fazem com a nosso país. Realmente, é difícil discernir quem está de quem não está "bem intencionado", e assim acabamos vendo de camarote a crise do Senado que, por cerca de 20% das vezes não é causada pelos próprios senadores, eleitos pelo povo, mas sim por suplentes. Pois entendam a tristeza com um exemplo um tanto "familiar" (literalmente): em 2008, Collor se ausentou por 90 dias do cargo de senador para ajudar na campanha de parentes em Alagoas - seu filho, Fernando James (PTB) e seu primo, Euclydes Mello (PRB-AL). Ada Mello (PTB-AL), sua prima, tomou posse em seu lugar, sendo a sua segunda suplente. O primeiro é o tal de Euclydes, que chegou a assumir o mandato por quatro meses, mas que no ano passado estava na campanha para prefeito de Marechal Deodoro (AL). Esse mesmo senhor foi acusado pelo Ministério Público Federal de Alagoas de "ter efetuado descontos referentes à contribuição previdenciária dos empregados e não repassar os valores ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)" - tais valores chegaram a R$ 1.643.753,83. E quem precisa de suplente assim quando já se tem o Collor?

O triste da história é que existem projetos para mudar essa falcatrua dos suplentes, mas é óbvio que o desinteresse é muito maior. Na própria página do Senado, lemos que tal mudança provocaria "complexidade desnecessária ao processo eleitoral, com desdobramentos na distribuição do horário eleitoral gratuito [leia-se: vai atrasar a novela das oito] com reflexos na composição da cédula eleitoral, provocando prejuízos no discernimento do eleitor". Pois o "discernimento do eleitor" clama por um mínimo de respeito, e não por "representantes dos representantes", convenhamos.

O próprio presidente da OAB, Cezar Britto, já declarou que suplente de senador é "clandestino", uma vez que ele não precisa de votos para ser eleito. Britto disse isso quando Edison Lobão foi nomeado ministro de Minas e Energia, permitindo que seu filho, Edison Lobão Filho (DEM-MA), assumisse uma confortável cadeira no Senado. Vi recentemente que o senador Eduardo Suplicy defendia que o político perdesse o cargo quando se afastasse, e não substituísse por determinado tempo a sua vaga, o que seria também algo justo. E mesmo a OAB, que participou ativamente do processo de impeachment do ex-presidente Collor, defende a extinção da figura do senador suplente sem voto, além da tal história do "recall parlamentar", que falarei num próximo artigo.

Nessa história toda, recordo-me do suplente de senador Wellington Salgado (PMDB-MG), aquela figura estranhíssima de cabelos grandes, outro defensor ofensivo de Sarney. Além de já ter se comparado com um "dálit" - é, como o Bahuan da novela das oito - por ser suplente, já disse que o "Senado virou um Big Brother político". Verdade, Vossa Excelência. E eu, aqui, só espero pelo paredão. A única indecisão da vez é: quem tirar primeiro?

o política chique adverte: vote sem indecisões nas eleições de 2010. vote bem. o paredão é a gente que faz.

Furta-cor

Desde pequena adoro desenhar. Quem me conhece, sabe: Bianca e Arte são dois fatores praticamente indissociáveis. Confesso que amava cores, no entanto, em determinado hiato de minha vida, deixei os lápis-de-cor de lado e passei a desenhar tão só com o monótono grafite. Passada a fase "cinza", voltei a ter o apreço que tinha desde sempre pelo colorido no papel. E na vida, em geral. Hoje, quem vê minhas "criações" se depara com uma verdadeira explosão de cores, chegando a ser até de tal forma exagerada - parece que o colorido pulsa no papel e tenta dar vida ao que antes era aquele simples e constante grafite. Enfim, conversa de artista.

A verdade é que a política brasileira vive uma fase muito preta e branca, sem fugir daqueles tons cinzentos do grafite. A crise no Senado se prolonga e não dá nem sinais de agonia: em meio aos tantos escândalos repletos dos olhares, das palavras e dos gestos enraivecidos - esquecendo o que um dia se chamou de "decoro parlamentar" - encontramos um Sarney com onze acusações arquivadas. Em outras palavras: deu em pizza. De fato a oposição irá recorrer e recomeçará toda uma novela que já sabemos, pra variar, o final: outra pizza. A descrença presente nesse texto não reflete a minha opinião política integral, mas, sinceramente, não vejo outro futuro para a situação nas mãos do presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque.

Mas a crise cinzenta no Senado pode ficar ainda pior quando olharmos por outros ângulos. Nos últimos dias acompanhei os escândalos "na íntegra" e enquanto ouvia discursos inflamados de certos políticos, percebi quem eram os indivíduos que declamavam diversas vezes palavras referentes à "moral" e "ética", ou, enfim, outras palavras que são barradas na porta do Senado. No final das contas, vejo um Collor visivelmente alterado e indignado, como se fosse portador de uma conduta honesta, digna e, principalmente, coerente. E coerência é outra palavra que os seguranças barram em Brasília.

O senador Fernando Collor não só criticou a mídia de forma combativa - teria ela dado as costas para quem um dia elegeu? - como também defendeu heroicamente a permanência de Sarney no cargo de presidente do Senado. Collor se mostrou solidário a seu amigo de longa data (sic) Sarney, afinal, já sofreu "tudo que ele está passando", como se fosse o alvo injustiçado da imprensa no momento. Tudo perseguição. As palavras ofegantes do ex-presidente em defesa do protótipo de dono do Maranhão foram fortes e no mínimo irredutíveis: "ela (a mídia ou parte dela) não conseguirá retirar o presidente José Sarney dessa cadeira. Nem ela, nem o senhor, nem quem mais esteja deblaterando como o senhor deblatera, parlapatão (!) que é, desta tribuna".

Seria uma bela defesa caso não encontrássemos um pequeno - leia-se enorme - fator destoante: Collor e Sarney já foram, um dia, figuras que, pelo menos em seus discursos públicos, divergiam gritantemente. E olha que não precisamos voltar tanto assim no tempo - se retrocedermos dez anos e dermos uma olhada nesse curto vídeo que está no "Youtube", tudo fica mais nítido: em 1989, no primeiro turno das eleições presidenciais, Collor discursava na televisão e, na falta de um termo mais sutil radical, massacrava José Sarney.

Sarney é descrito como um "irresponsável", um "omisso", um "desastrado", "um fraco", como o homem que "desgraçadamente" ainda ocupa a presidência da República. É ainda um cidadão de "más intenções" que não dignifica o cargo que ocupa, sendo "um dos piores presidentes" que o Brasil teve a "infelicidade" de ter, pela sua ambição e falta de grandeza.

"É bom reavivar a memória da nossa gente. O senhor sempre foi um político de segunda classe, o senhor nunca teve uma atitude de coragem, o senhor pegou carona na História, beneficiando-se de uma tragédia que emocionou o país. O senhor é o culpado pela maior inflação de todos os tempos [...] O senhor passou a maior parte do tempo apadrinhando os seus amigos, os seus familiares, muitos dos quais hoje sendo processados por atos de corrupção". Collor ainda se vangloria, dizendo, orgulhosamente, que foi o único governador a se opor ao presidente Sarney. e indaga: "Me responda, José Sarney, por que o senhor tem receio da mudança no Brasil? O senhor está com medo de quê? O senhor está com medo de perder seus privilégios e mordomias, talvez?". De forma quase que retórica, ele mesmo responde, afirmando que realmente, ele precisa ter medo pois ele - logo ele! - iria vasculhar a sujeira do seu governo e colocar os corruptos atrás das grades. Esperemos sentados.

Collor ainda acreditava que Sarney era adepto da máxima "quanto pior, melhor", buscando instaurar o verdadeiro caos no país, para assim decretar um "novo" AI-5, se perpetuando no poder como mais um ditador. "Mas nosso povo não é bobo, José Sarney, e nem é cego", acrescenta, dizendo ainda que Sarney não deu casa nem comida à população, e que agora queria dar "circo". Pois hoje continuamos na mesma, só que o tal "circo" atingiu proporções inimagináveis - e pior: os palhaços somos nós. E Collor não termina por aí: "com o fim do seu governo termina uma triste fase da política brasileira [...] chegou a vez dos homens de bem, chegou a nossa vez".

É estranho ouvir do ex-presidente e atual senador Fernando Collor tais palavras, ainda mais quando trazidas para a crise preta e branca contemporânea que já falei. É realmente bom "reavivarmos a memória" da nossa gente, como o próprio disse, e sugiro que façamos isso de novo e de novo e de novo. Vejamos como Sarney continua "com medo", "apadrinhando" e fomentando o "circo" na política. E, Céus!, o que tiro dessa lição? Prefiro, ainda, um mundo preto e branco, cinzento como o do monótono grafite, a um simulacro repleto de cores falsas, hipócritas e indignas. Prefiro-o sem cor, a um com um colorido dissimulado. Não quero esse Collorido para o Brasil.

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Deselegância

Ser elegante é tudo. Não é simplesmente usar palavras rebuscadas e vestir bem roupas chiques. Ora, se fosse assim, um mínimo de instrução e um pouquinho a mais de cash fariam do mundo um poço de elegância. E bem sabemos que não é assim. O elegante é distinto não só pela sua postura - que não seja entendida aqui como argh! elitismo ou superioridade - mas também pela sua compostura, sendo, na minha opinião, um indivíduo extremamente virtuoso: saber os limites entre elegância, exagero e esnobismo é algo, digamos...Valioso. Único. Ah, elegante mesmo.

Mas você se questiona, quebra a cabeça e tenta descobrir por que um texto com ares de Gloria Kalil, que mais fala dos tons magníficos dos cachecóis (ainda que em terras tupiniquins) nessa estação, faz num blog - ainda que chique - sobre política. A verdade é falta elegância nos nossos representantes. E não falo aqui de ver o Lula vestindo um terno Armani e usando perfume Lacoste - ainda que isso provavelmente ocorra. Segundo o Michaelis, o elegante tem um estilo de notável graça e distinção, é distinto naturalmente pelo seu porte e pelas suas maneiras.

E falta essa graciosidade dos políticos com os brasileiros. Não há nada mais esdrúxulo e grosseiro do que presenciar as atrocidades cometidas pela nossa "Casa de Horrores", eufemismo sutilmente utilizado pela revista britânica "The Economist" para definir o nosso Senado. Acompanhamos o excêntrico barraco - na falta de um termo mais conciso - entre Fernando Collor, Renan Calheiros e Pedro Simon. Uma verdadeira troca de ofensas, ainda que precedidas por um hipócrita e lacônico "Vossa Excelência", acompanhadas não só por palavras enraivecidas como também por olhares sugestivos. Um vexame nacional.

Hoje, o assessor de Sarney antecipou sutilmente o que será dito pelo Presidente do Senado, afirmando que ele não só que ele não renunciará mas ainda que provará que é "bom de briga". Segundo o assessor, ele teria "apanhado calado" durante quatro meses, e que agora, com o discurso que será realizado às 15h, "irá para a guerra". Sinto que a política atual se transformou numa continuidade mórbida de "O Gladiador", mas com uma pitada de verossimilhança que me é assustadora.

Enquanto isso, a oposição aposta que as representações contra José Sarney serão arquivadas durante a reunião do Conselho de Ética. Segundo a "Folha", os senadores oposicionistas conversaram com Paulo Duque, presidente do Conselho, e tudo indica que o arquivamento das acusações é quase certo, ainda que ele não tenha se posicionado oficialmente. Procurado pela "Folha Online", Duque não foi encontrado, mas confirmou, por seus assessores, que hoje sai a decisão sobre o que será feito em relação às representações contra Sarney.

Falta elegância em muitos políticos. Falta o mínimo de educação deles com o povo que os elegeu. Falta o respeito com os eleitores quando seus nomes surgem em excêntricos escândalos envolvendo corrupção. Onde está a graciosidade após as promessas não cumpridas? Não me refiro aqui a populismo fundamentado em carisma barato, mas em representantes que efetivamente representem o Brasil. Não queremos mais medidas paliativas, não queremos mais propostas ilusórias, não queremos mais essa falta de educação com o brasileiro.

Cansam-me as deselegâncias de uma política infundada. Ou pior, fundada em preceitos decadentes. A graciosidade à que me referi aqui não precisa de professores de etiqueta, roupas de marca, palavras rebuscadas - ela pode perfeitamente ser ensinada por gente humilde. Ela pode perfeitamente ser ensinada por qualquer um, na verdade, desde que esse um seja honesto. E é essa única elegância que um político precisa - a honestidade.

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