Aprecio a boa poesia. Óbvio que o sentido de "boa", para mim, é bem único - adoro um Olavo Bilac, um Manuel Bandeira, um Carlos Drummond de Andrade, enfim, tudo depende do dia, da hora e da paciência no momento. Existem aqueles poemas pra lá de indecifráveis, e pior, sem rimas, sem nada. Não tenho muitos problemas com a falta de sonoridade - quem conhece Augusto dos Anjos, outro poeta que me agrada, sabe que ele usa palavras estranhas que de nada teriam a ver com aquela imagem de poesia doce, delicada, que agradam tanto mocinhas bobas (é, eu gosto) - mas a ausência de sentido é algo que realmente me irrita. Talvez o problema não seja com o escritor - aliás, muito provavelmente não seja com ele - mas com a minha capacidade de decifrar o que está intrínseco na subjetividade de um eu-lírico conflituoso. Céus!, e, digamos, a inexistência de rimas é um fato que me provoca um pouco, mas que pode ser compensada com outros artifícios, afinal, não é a boa rima - e não falo aqui de juntar "amor" com "dor" - que constitui a boa poesia.Há um outro poeta que gosto também: Manuel Bandeira. Ele é o autor do lindíssimo "Poética", obra que adoro do fundo do coração; daquele outro, bonito demais também, "Arte de Amar", dentre outros de genialidade gritante. Mas o que me inspirou verdadeiramente a escrever esse texto foi o já tão parodiado - só não bate a "Canção do Exílio" - "Vou-me embora para Pasárgada". Relembrarei-os da obra pois vale a pena:
"Vou-me embora para Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei"
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei"
Pois onde será a Pasárgada brasileira? No Senado. Corram para se filiar a algum partido político e concorrer a uma vaga de senador, já que o prazo acaba no dia 2 de outubro. Ouvi na rádio CBN quais são os muitos benefícios que os eleitos ao cargo recebem e olha que a lista não é pequena: logo de início, eles recebem subsídio mensal de R$16.500, quinze vezes por ano. Como verba indenizatória são mais R$15.000 por mês. De auxílio moradia vão mais R$3.000. Carro com motorista? Sim. E mais 25 litros de gasolina - por dia. Cota na gráfica do Senado de R$8.500 por ano. E quatro passagens aéreas de ida e volta.
Quem se torna líder ou membro da mesa diretora ganha o direito de nomear livremente cinco assessores e seis secretários parlamentares com salários entre R$6.750 e R$9.000. O presidente da Casa, José Sarney, ainda tem residência oficial, direito de usar aviões da FAB, pertence ao Conselho da República e ainda é - respirem fundo - o 4º na linha de sucessão. No mais, ainda escolhem um suplente que não precisa receber nem o meu e nem o seu voto.
Uma vergonha. Lembrando ainda que nessa semana foi aprovada uma emenda que recria mais de 7,7 mil vagas de vereadores no Brasil. Detalhe: em 2008 o TSE reduziu em 8 mil esses mesmos cargos. E agora eles ressurgem assim, sem o menor pudor.
A verdade é que vivemos num verdadeiro paraíso para a politicagem e suas artimanhas. Manuel Bandeira, permita-me que, mais uma vez, seja criada uma paródia da sua tão bela fuga para Pasárgada. A minha extrema indignação momentânea, de braço dado com a licença poética, me traz novos versos para caracterizar a atual política brasileira:
"Vou-me embora para o Senado
Lá sou amigo do Sarney
Lá tenho o suplente que quero
E o salário que escolherei"
Lá sou amigo do Sarney
Lá tenho o suplente que quero
E o salário que escolherei"
A verdade dói. Mas pelo menos rimou.





