Polícia e ladrão

Véspera de aniversário é algo que, não sei exatamente a razão, me torna um tanto nostálgica e saudosa, algo que deve acontecer com outros. Acho cômico pois certas memórias de anos e anos atrás incrivelmente permanecem intactas em minha mente - o que é, no mínimo, excêntrico, uma vez que ela tem falhado incalculáveis vezes ultimamente - parecendo terem acontecido há dias, semanas atrás. Não é a maioria delas, de fato. Muito pelo contrário. Pior: não costuma nem guardar os acontecimentos que deveria de verdade. Exemplifico: minha mãe se revolta por, de nossas duas viagens em família à Disney, eu apenas lembrar de ter ficado enjoada no hotel, ter queimado a língua com chocolate quente e ter pisado no pé do Pateta. Ou do Mickey, não importa. Princesas, brinquedos, paisagens? Não me lembro. Viajamos quando tinha cerca de sete anos, na primeira, e oito, na segunda. Considerando que se passaram dez anos do ocorrido, deveria eu recordar mais lembranças? Provavelmente. Considere, no entanto, que mal sei que dia é hoje. Mentira. Sei. Mas só por meu aniversário estar a caminho.

Recordo-me, também, das brincadeiras. Engraçadíssimo ver os meninos brincarem do clássico "polícia e ladrão". Mas isso quando eu era realmente menininha. Já quando tinha uns dez anos, a sensação na rua em que morava, num agradável bairro da zona sul carioca, era brincar de "rebelião". Pois é: o velho "polícia e ladrão" já era brincadeira ultrapassada. Os meninos corriam pela pracinha e divertiam-se fazendo mini-revoltas. Não sei, sinceramente, como a folgança se desenrolava: se queimavam colchões para ganhar sobremesa, se faziam seus pais de reféns por não quererem ir para a escola ou se criavam passagens subterrâneas para ver a famosa "Emanuelle" na casa do coleguinha. Não vem ao caso.

Por mais que a situação seja engraçada, digamos que o que a separa do "trágico" é uma linha tênue: a violência já se fixou no imaginário coletivo, inclusive no de crianças - quem duvidaria que em algum bairro do Rio de Janeiro já não teriam crianças brincando de "polícia e milícia"? Vimos ontem na cidade maravilhosa estourarem uma série de absurdos contra a população carioca. Desrespeito tremendo. Teve helicóptero da PM sendo abatido, teve ônibus sendo queimado, teve tiroteiro, teve bala perdida, teve gente inocente morta. Céus, o que há de errado?

Não podemos estender o ponto em que até as crianças, o que nos resta de símbolo de esperança, desacreditam na própria cidade. O problema da violência no Rio de Janeiro, entre n outras causas, é também de educação. Ou melhor, a falta dela. E educação é um problema político. Aumentem os salários do policial, coloquem o Estado na favela, mas não ponham em segundo plano o estudo. Em 2016 teremos Olimpíadas no Rio, oportunidade particular para mostrar que o Brasil veio pra ficar, que de país do futuro agora vira também país do presente. E como fazer isso se não curarmos - e não simplesmente abafarmos - os nossos grandes obstáculos? As crianças de hoje vão ser nossos atletas, os nossos Ronaldos, Martas e Gibas - e que lugar melhor, que não a escola, para eles serem estimulados a entrar numa vida onde há oportunidade?

Não deixemos essas crianças serem desestimuladas pelo horror que vemos na política nacional. Se vemos uma governadora no sul do país sendo acusada de gastar o dinheiro público na compra de enxoval e aturamos políticos com ficha suja - ou imunda, se preferirem - sendo nossos representantes, o que pode servir de reflexo para esses pequenos? No mais, se até em Brasília brincam do velho "polícia e ladrão", deixem nossos meninos se divertirem com o que têm. Só espero que não prevaleçam os "ladrões" - já nos bastam os em Brasília.

Um Nobel e uma loira platinada

Martin Luther King Jr, Madre Teresa de Calcutá, Mikhail Gorbachev, Nelson Mandela, Yasser Arafat, Kofi Annan, Jimmy Carter e Al Gore. O que norte-americanos, palestinos, sul-africanos, macedônios e soviéticos têm em comum? Todos tiveram o gostinho de receber um prêmio Nobel da Paz, por esses nomes pouco conhecidos nessa seleta lista a qual comecei o texto. Pois não é mais novidade quem é o novo integrante desse clubinho de pacifistas - o simpático Barack Obama. Injustiça? Roubado? Já era tempo? Consenso passa longe. Os próprios Mandela e Gorbachev elogiaram a decisão. Fidel - sim, Fidel, compañeros! - idem. Já líderes do Hamas e do partido conservador paquistanês, por exemplo, criticaram duramente Obama, alegando que ele nada ainda fez de efetivo pela paz - promessas, promessas e mais promessas, e daí?

De fato não foi só no Oriente Médio que Obama foi apedrejado. No mundo inteiro surgiram as mais diversas críticas ao prêmio - não precisava procurar bastante para encontrar na própria imprensa brasileira duros argumentos desfavoráveis ao presidente norte-americano. Já li que a atitude foi apressada - é, digamos que alguns meses também me soam de forma estranha, apesar de ter simpatia por Obama - já li que o prêmio é uma farsa e já li que esse foi um grande passo na história mundial. Sinceramente, acredito que ele tem disposição e gás para as tais mudanças que tanto prometeu. E o simples fato de ter sido eleito - o que não reduz o seu compromisso - já até demonstrou um certo amadurecimento de uma sociedade norte-americana marcada pelo racismo. Digo, cautelosamente, "certo" pois após ler que 61% da população dos EUA ainda apóia as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki durante a 2ª Guerra Mundial, bem...Nada mais me surpreende.

Obama, como escrevi no início do ano, trouxe em sua eleição toda aquela aura de otimismo e necessidade - leia-se urgência - de mudança. O fardo era grande: receber um Estados Unidos afundado na crise econômica, um Tio Sam odiado ao redor do mundo e pior: administrar o caos deixado por Bush. Pois sua jovialidade e motivação me trazem à tona Kennedy. Kennedy também tinha todo esse carisma do atual presidente: sorria como galã, saía bem nas fotos e tinha uma família "perfeita" - desconsiderando os seus affairs extra-conjugais. Recebeu um país, em 1961, no meio da Guerra Fria. Os conflitos internos explodiam. E ele lá, no auge de seu heroísmo, defendeu as minorias e fez discursos memoráveis, históricos. Obama ontem, por exemplo, retomou a sua defesa das causas homossexuais. E aí encontramos mais minorias...Dèja vu.

Pois é, Kennedy e Obama. Eles formariam uma boa dupla, talvez. Os pontos em comum vão além de os dois terem ou terem tido esposas com um guarda-roupa chiquérrimo - apesar de Jackie Onassis ter um "quê" a mais de glamour, convenhamos. Ora, mas existem também diferenças, óbvio. Dentre elas, o tão polêmico Nobel da Paz. É, JFK ficou sem esse, mas ficou marcado por receber outro prêmio tão polêmico quanto, ainda que em termos diferentes: uma loira assim, platinada, sexy e irreverente - Marilyn Monroe. Pois só Kennedy recebeu o tal "feliz aniversário" - "Happy Birthday, Mr. President!" - mais comentado da história.

Obama, no entanto, estaria em tempo de ter uma loira platinada também e sair na frente de JFK. Quem seria, nos dias de hoje? Madonna? Melhor procurar outra. Madonna já encontrou Jesus...

Amém.

De braços abertos

Multifacetada. É o que a nossa cidade é: de maravilhosa, como consagrou a marchinha, a partida, como cunhou Zuenir Ventura, se tornou também olímpica, como permitiu o mundo. O Rio de Janeiro chegou esbanjando vontade e mostrou internacionalmente como queria sediar os jogos do mais importante evento esportivo existente, ainda que com o estigma terceiro-mundista em meio a tantas gigantes - Chicago, Tóquio e Madri. Quem diria? A batalha foi extensa, extenuante e intensa: passou pelo preconceito e receio dentro e fora do próprio Brasil, colocou as alcunhas em segundo plano e recebeu a chance não só do Comitê Olímpico Internacional, mas do mundo, de mostrar o que nossas terras tropicais têm de melhor.

Entendo, sem hesitar, os zilhões de pés atrás com as Olimpíadas de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. De fato não há una única modalidade de crítica ao fato ocorrido - existem os que temem um desvio de verbas absurdas, como ocorrido nos Jogos Panamericanos; existem os que acreditam que o Brasil precisa investir em fatores mais urgentes de infraestrutura; existem os que acham que as Olimpíadas deveriam ser feitas mesmo em Brasília - arremesso de pizza? - mas também existem aqueles paulistas implicantes que preferiam Buenos Aires a Rio de Janeiro. Enfim: tem de tudo.

Não escrevo aqui como carioca que sou, mas sim como brasileira. O Rio tem problemas como toda grande metrópole, agravados pelo simples fato de ser localizado num Brasil de Estado que se mostra muitas vezes bur(r)ocrático, corrupto e descompromissado. Puro azar, diria. Mas também tem uma sorte imensurável, afinal, propicia o prazer diário tão incomum aos moradores de poder viver o cotidiano num cartão-postal - sol, praia, morro, lagoa, mulher, homem, samba. É incrível. No meu (longo) caminho de casa até a faculdade faço um tour que chega a arrepiar, ficando até difícil de escolher a paisagem mais bonita. Pois a verdade é que o Rio não é só Copacabana, e isso o turista já reparou: a beleza carioca é vista em tudo quanto é canto, mesmo favelas com aquela explosão toda de cultura já encanta muito "gringo" por aqui. Só que essa maravilha toda já cansou de ser ofuscada na mídia nacional e internacional pelo descaso dos seus governantes - ônibus queimado, arrastão, sequestro, tráfico de drogas, prostituição: será que o Rio está podendo rir à toa?

Não. Impossível esconder os problemas. Mas estamos de braços abertos para soluções. Estamos de braços abertos para o comprometimento das autoridades, estamos de braços abertos para o Brasil, estamos de braços abertos para o mundo inteiro. O Rio, e não Chicago ou Madri ou Tóquio, vai ser, em 2016, não só a capital brasileira, mas do planeta, como foi recentemente Pequim - e, olha só!, que importante que ficamos. Lula disse no início do ano como estávamos "chiques" por emprestar dinheiro ao FMI, e agora, presidente, o que somos? Somos chiquérrimos. Já somos vencedores. A Olimpíada de 2016 não é uma conquista única dos cariocas, nem exclusiva ao Brasil. Ela é a prova mais concreta do crescimento no espaço global de nações que antes eram excluídas do "clubinho" dos gigantes desenvolvidos. Os chamados BRICs - Brasil, Rússia, Índia e China - países com potencial assustador, mostram que o mundo de hoje não é o mesmo que foi consagrado por tanto tempo na História. E nós sabemos como ele perdurou.

Os investimentos serão suntuosos. Os desvios, muito provavelmente, também. Mas creio - chamem-me de utópica, idealista, ingênua - que o Brasil e os brasileiros têm se preparado e amadurecido para receber um evento de grande porte como o tal. Que não seja uma Olimpíada puramente alegórica como a chinesa - belíssima, porém varrendo para debaixo do tapete os problemas mil que assombram a China - e busque resolver, nesses anos que virão, amargas questões internas.

Aceitemos de braços abertos essa oportunidade de mostrar que crescemos. Deixemos a euforia um pouco de lado e percebamos, da maneira mais racional possível, que em 2016 não teremos um Carnaval fora de época, mas sim o evento esportivo mais importante do mundo. Observemos também a conquista que a América do Sul alcança ao sediar pela primeira vez os jogos olímpicos. Relembro a "Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil", como na marchinha. Ouço um "Samba do Avião", do Jobim. Ah!...O Rio de Janeiro continua lindo. E vai ficar ainda mais quando receber alemães, italianos, russos, australianos, ingleses...
Aaaaaah, mas eu não perco um jogo!